O Julgamento de Érika Holtor

Prólogo

Em uma cidade fronteiriça do reino em constante estado de vigilância de Trenet, dois cavalheiros terminavam uma longa conversa em uma estalagem da aristocracia citadina. Um deles era Albrecht MacDougall, o grande paladino trenetense, herói de incontáveis rapsódias sobre grandes feitos cantadas pelos bardos e trovadores errantes. O outro era um homem misterioso, que exercia uma enorme influência sobre o que ocorria no reino.

- Então tu farás realmente esta loucura? – perguntou o homem.

- Não seria um homem se não o fizesse. – respondeu Albrecht.

O homem na penumbra tomou um vigoroso gole de sua taça. Refazendo seu fôlego, disse algo:

- Bem sabes, paladino, que nem mesmo tua honra, glória, fama ou honradez inquestionáveis irão livrar-te da pena capital se fizerdes o que intenta.

- Eu irei cumprir a Lei. Nasci para cumpri-la, olhar por Ela e trazer para este mundo o amor de Leonar e a justiça de Kolthar.

O homem riu baixo.

- Sim, irás cumprir a Lei, mas em compensação, descumprir a lei do nosso rei.

- As leis dos monarcas mortais não sobrepujarão jamais as leis divinas.

O outro serviu novamente sua taça com o vinho.

- Se vais desobedecer a lei dos decretos reais, o que te impede de fazer o que inevitavelmente irás fazer e depois permanecerdes vivo? Muitas são tuas habilidades, e elas garantem a ti uma força capaz de derrotar toda a Milícia Trenetense em Golthorny.

- Eu apenas farei cumprir a Lei onde ela se vê lesada. Mas a lei real que decreta minha execução não fere a Lei Divina.

- Então isto significa que tu estás condenando-te à morte?

- Eu não vejo desta forma.

- Como deveria eu ver então? Premeditas uma quebra de lei, sabes que a pena é no mínimo o emparedamento vivo e o ostracismo, e não devo ver isto como uma espécie de suicídio?

- Eu morrerei no cumprimento de meu destino. O maior bem de um paladino é juntar-se aos grandes heróis, e aos bons deuses, Kolthar e Leonar por ter servido aos desígnios da Criação e da Justiça. Aliás, o povo unido de Trenet irá seguir meu exemplo.

O homem engasgou, tamanha sua surpresa.

- Acaso disse eu algo que parecesse ter sido dito por um bobo? – perguntou Albrecht, ligeiramente irritado com a atitude do homem.

- Desculpe, é que tive a nítida impressão que havia dito algo sobre o povo trenetense fazer algo que iria contra os decretos de Ramon Holtor. Devo ter ouvido demais.

- Pois asseguro-te, caro amigo, que teus ouvidos estão acurados como de costume, já que ouviste muito bem.

- E asseguro-te de que estás definitivamente e certamente destituído de toda e qualquer razão.

- Por que pensas assim?

- Qualquer um sabe que o povo trenetense não questiona as resoluções de Holtor III, nem os decretos mais absurdos. O medo da Milícia refreia as ações e os pensamentos do povo de nosso reino.

- Então é meu dever lembrar o povo de Trenet da lei máxima de nosso reino, que existe desde que o nosso país foi fundado, pelos grandes heróis morgdaneses.

- Refere-te ao Chamado de Trenet?

- Sim.

E então o herói proferiu o legendário Chamado de Trenet:

Um animal pode ser domado com comida
Um homem vulgar pode ser domado pelo medo ou pelo ouro
Mas o Povo Unido de Trenet
Jamais poderá ser domado

- Isso causa orgulho em qualquer trenetense. Em todas as situações em que estivemos prestes a ser tomados pelo desânimo, o grande canto de Scott Charleston inflamou nossos espíritos e assim resistimos heroicamente às investidas inimigas.

- Então vês nosso rei como uma ameaça ao reino?

- O nosso rei é uma ameaça para si mesmo. Sabes que quando éramos crianças, tínhamos fortes laços de amizade? Não entendo como ele corrompeu-se de tamanha forma.

- Isso é de conhecimento geral do povo trenetense, e pondero que esta amizade entre vocês é o que realmente têm conservado Holtor no trono, pois tua honra é ímpar em todo nosso país. E eu te digo, nobre Albrecht, a única forma de conheceres a índole de um homem é dando-lhe grandes poderes.

- De qualquer maneira, devo reparar um erro terrível, e relembrar ao povo de Trenet sua verdadeira natureza. Se me der licença, acho que vou partir.

- O “Povo Indomável”. – ponderou o homem, olhando para a chuva forte. – Vá, meu caro amigo, fazes o que intentas. Deveria impedi-lo, mas sinto que seria injusto fazê-lo. Mesmo assim, ainda acho que o povo de Trenet irá lamentar sua morte, mas pouco mudará.

Albrecht sorriu, recolheu seus pertences e foi em direção à porta. Porém, antes de sair, respondeu:

- Eu não pretendo mudar o povo trenetense. Apenas quero despertá-lo.

Durante séculos os governantes mortais dos reinos deste nosso mundo banhado pelos eternos sóis gêmeos têm feito questão em não intrometer-se nos assuntos dos deuses benevolentes e seu clero, em um acordo velado entre ambos. Mas, naquela época, havia um monarca em Trenet, chamado de Holtor III, ou Holtor, o Condenado, como ficou conhecido nos Registros Morgdaneses. Ele teve a infeliz idéia de cobrar uma taxa esdrúxula sobre a cura ministrada pelo clero das igrejas oficiais trenetenses, na capital do reino, Golthorny. Um grande herói da Igreja do Criador, Albrecht MacDougall, o Paladino de Prata, soube deste abuso intolerável na região da Carlalia, no noroeste do reino. Decidido a reparar essa injustiça e uma grave transgressão da Lei Divina, Albrecht rumou para Golthorny sem demora; quando chegou, curou alguns dos enfermos que eram castigados por uma terrível moléstia que assolava a região mais pobre da cidade. Os Mastins de Trenet o prenderam poucas horas depois de ter chegado na cidade, e foi levado à presença de Ramon Holtor, ou Holtor III. Mesmo sendo amigo de infância da família real, Holtor III não titubeou e o condenou à morte. Mas a pior sentença não foi a morte, mas sim o que veio após. Como de acordo com a lei trenetense desrespeitar um decreto real é uma alta traição, Holtor III declarou que MacDougall deveria sofrer por toda a eternidade. Para tanto, deixou o corpo do Paladino de Prata insepulto na mais maldita das regiões ermas da capital, conhecida como “Reino dos Vermes”. De acordo com as lendas e crenças trenetenses, aquele que permanecer insepulto no Reino dos Vermes vagará eternamente no Limbo entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, em agonia e tortura perpétuas. A história que contarei agora a vocês é sobre como este fato desencadeou um dos incidentes mais discutidos da história de Morgdan, e por quê.

O Julgamento

Aquela era uma noite fria e chuvosa na capital de Trenet, Golthorny. Embora poucos habitantes pudessem proteger-se eficazmente das intempéries do inverno, a palácio real era muito bem equipado para tais situações. Mas nem por isso a primogênita de Christopher Holtor sentia-se mais confortável.

Ainda que fosse a primeira filha de Holtor II, Erika não fora coroada rainha porque havia o seu irmão, um ano mais novo, Ramon. De acordo com a lei real de Trenet, o varão da família real deve ser sagrado rei, mesmo se for cinco anos mais novo que sua irmã. Erika não importava-se com este fato. Estava feliz por seu querido irmão, e isso bastava. Mesmo não sendo a rainha, Erika era mais apreciada pelo povo trenetense que Ramon. Sua bela serenidade, de longos cabelos castanho–claros, olhos que mais pareciam duas estrelas caídas de um céu enluarado, e seu evidente parentesco em todos os sentidos com o pai, Christopher, a faziam ser a nobre mais querida do reino. E agora que estava prestes a casar-se com Dean MacAberdeen, um dos homens da mais alta nobreza de Trenet, cortejado pelas donzelas da corte, justo, piedoso, e sério candidato à sucessão real, tudo corria para que ela estivesse satisfeita e tranqüila.

Mas Erika não conseguia. As atitudes do rei no trono a deixavam cada dia mais preocupada, com o reino e com o seu irmão. Aos olhos de uma massa de revoltosos cada vez maior, Ramon parecia querer fazer qualquer coisa para tornar seus súditos cada dia mais miseráveis do que já estavam – com o que ele respondia com uma severa repressão, por meio da Milícia Trenetense, que fazia as vezes de exército e polícia secreta do reino. Na verdade, Ramon estava obcecado por preparar-se para uma guerra improvável, que para ele, estava prestes a estourar entre Trenet e Longness. Sua atitude era apoiada em parte por Juan Warman, líder da Milícia, e por um grupo importante de nobres e outros sectos da sociedade trenetense, como alguns magos, assassinos, e até mesmo piratas, “elevados” ao status de corsários pelo monarca. Todos contribuíram para transformar a Milícia Trenetense em um dos mais poderosos exércitos que um reino sozinho poderia empregar. Desta forma, Ramon enxergava seu reinado como um regresso aos anos de glória e conquista, e ele seria conhecido na história trenetense e morgdanesa como um conquistador, um general, um estadista. Em sua visão, seus súditos deviam adorá–lo como a um semideus.

Para Erika, esta situação instável não suportaria a mais um desmando de Ramon, e isso a preocupava. A jovem irmã mais velha do quase adolescente rei de Trenet realmente pensava que nada de pior poderia acontecer. Até que sua serviçal mais fiel, Roselyn, lhe trouxe uma notícia que mudaria definitivamente sua vida e a de Ramon.

Roselyn entrou apressada na alcova de Erika, como se temesse estar sendo seguida ou espionada, fechando a porta logo que adentrou o recinto. Erika assustou-se com tal atitude:

- Roselyn, que fantasmagoria a fizeste entrar em meu quarto desta forma? – perguntou Erika.

- Minha senhora, agora atesto que nenhum mal é suficiente para abater-se sobre nosso reino, e que nada mais espero a não ser um futuro sombrio e incerto para esta terra. – disse a dama, abatida.

- Do que estás falando, Roselyn?

- Acabo de saber, pelos lábios de Mark, o guarda de confiança de Vossa Majestade, que Albrecht MacDougall, o maior herói de nosso reino, irmão tão querido e amado pelo nosso povo, foi condenado à morte pelo rei em pessoa, e executado pouco depois de caído o crepúsculo.

- Tens consciência do que dizes, Roselyn?

- Tive dúvidas como a senhora no início, mas asseguro-te que é verdade.

- Com que motivos meu irmão decretou tal absurdo?

- Parece-me ter ouvido nesta tarde que o Paladino de Prata curava pessoas na Cidade Nova sem a permissão dos agentes de impostos de Vossa Majestade.

- E apenas isso foi o bastante para que o maior de todos os heróis do reino fosse condenado?

Roselyn balançou a cabeça, e em seguida, disse mais:

- O pior não foi a morte do grande herói, minha senhora. Vossa Majestade ainda decretou que seu corpo permanecesse insepulto no Reino dos Vermes. Diga-me, ó senhora, o que de pior pode haver do que, além de ser condenado por praticar atos nobres, ser fadado a vagar sem descanso no Limbo da quase – morte, quase – vida, por toda a eternidade?

A única resposta de Erika foi um olhar triste e desesperançoso. Ela caminhou de forma graciosa, porém evidentemente transtornada, até a janela de seu quarto. Fitou as nuvens e as trovoadas, balbuciando algo que poderia ser uma curta oração. Em seguida, tomou fôlego, e decidida, voltou-se para Roselyn.

- Então, tal é a situação. E agora vais mostrar-me se a vida confortável do palácio a transformou em uma mera conformista ou se da tua vida farás nobreza.

- E de que adianto eu, ó minha senhora, em minha baixa e humilde condição, em atar ou desatar este nó?

- Vê se queres cooperar e atuar comigo.

- Em que espécie de atos e riscos?

Erika estende sua mão aberta até Roselyn. Em seguida, faz um convite:

- Se junto com esta mão vais sepultar o cadáver.

- Acaso pensas em sepultar o Paladino de Prata quando isto está proibido a todos no reino inteiro?

- Sim, a este irmão que é meu e teu, e de todos os súditos deste reino, ainda que não o queiras.

- Minha senhora, devo lembrar-te novamente que isto está interdito ao reino! E a pena é a morte, junto com Albrecht!

- A meu irmão não é dado separar-me dos meus.

- Minha senhora, desculpe-me o que lhe direi, mas é preciso. Devo lembrá - la de que somos apenas duas mulheres, e a nós não é dado combater os homens, nem aos poderosos, por quem somos governadas, de modo que submetemo – nos a isso e a coisas ainda piores. Por isso rogo aos bons deuses e meus antepassados que tenham mercê, visto que sou constrangida, e obrigada a obedecer aqueles que caminham nas sendas do poder. Atuar em vão é coisa que não faz sentido.

- Não serei eu que te ordene, nem ainda que o quisesses fazer, colaborarias comigo de bom grado meu. Procedes como bem entenderes. A Albrecht, meu irmão tão querido, eu lhe darei sepultura. E se por acaso for condenada por seguir a Lei Divina, não me importarei; para mim, é honroso morrer por executar o que é justo e honrado. Jazerei ao lado dele, sendo-lhe cara, sendo considerada criminosa por ter cumprido um dever sagrado.

- Eu não faço nada que não seja honroso, mas sou incapaz de ir contra os decretos de Vossa Majestade.

- Podes apresentar essas desculpas aos bons deuses e seus antepassados, que eu por mim vou erguer um túmulo para nosso irmão tão querido.

- Minha senhora, como receio por ti!

- Não temas por mim. Assegura tua vida.

- Mas ao menos não revele a ninguém essa ação; guarda – a em segredo, que outro tanto farei eu.

- Nem penses nisso! Denuncia-me! Serás por mim odiada se permaneceres calada, mas terás minha gratidão se proclamar meu ato diante de todos.

- Conservas um ânimo esquentado perante a fria realidade.

- Mas sei que devo honrar aqueles que estão desonrados.

- Convém principiar por não andar atrás do impossível.

- Se assim falares, serás por mim odiada, e com razão serás acusada de odiares aquele que morreu injustamente. Mas deixa-me, a mim à minha loucura, a sofrer as conseqüências de um ato honroso. Eu, por mim, creio que não haja pior mal do que morrer sem honra. – disse Erika, vestindo um manto cinza – escuro, enquanto abria a porta de seu quarto, do modo mais silencioso possível.

Erika partiu para fazer seu fatídico ato. Poucos segundos depois, Roselyn, ainda nos aposentos de Erika, disse algo:

- Minha senhora, com razão serás amada pelos que te são caros, e que bênção seria à nossa gente se fosses nossa rainha.

Na sala do trono do palácio, por muitos anos conhecida como a mais suntuosa de todo o continente, o monarca Ramon Holtor recebia o líder da Milícia Trenetense, Juan Warman, que chegava de longa viagem da cidade de Wharm. Estavam conversando há algum tempo, inicialmente sobre amenidades; porém, a conversa tomou rumos mais políticos e sóbrios, sobre assuntos que, para Ramon, demandavam grande urgência.

- Pois muito bem, General Warman de Wharm. Ouvi dizer que um dos altos oficiais da Milícia, o elfo Smutts, descobriu um novo uso para os ovos de fronnos?

- Isso mesmo, Majestade. Smutts, junto com os demais Mestres da Sabedoria, constatou que com as cascas dos ovos de fronnos pode-se destilar uma espécie de óleo, de propriedades que acreditamos que sejam extremamente benéficas ao corpo e à mente. Trouxe uma pequena dose em meus pertences.

- Vejo que os impostos estão sendo bem empregados, já que a nossa Milícia descobre até mesmo substâncias que nutrem a mente e o corpo. Mas, falando de outros assuntos mais urgentes, que notícias trazem os Harpias sobre a fronteira noroeste?

- Como prevíamos, Majestade, este é o momento oportuno para a execução do nosso plano.

- Os Punhos de Adamante e os Escudos de Mitral já foram mobilizados?

- Pelas minhas estimativas, eles estarão passando por Golthorny amanhã, no raiar mais alto da luz do dia.

- Quanto aos Lâminas Cegas?

- Já estão na cidade de Wharm há um mês e meio, Majestade.

- Qual local pensaste para iniciar a campanha?

- Talvez uma pequena cidade chamada Birminengham, que fica a quatro dias de marcha de Wharm. Sua localização tornará seu domínio oportuno para as demais investidas que faremos. Se o plano for seguido à risca, em menos de meio dia, ela será nossa. Claro que a rapidez e mobilidade serão essenciais.

- O que significa que usarás os Lâminas Cegas e os Punhos de Adamante.

- Exatamente. A primeira onda de ataques será conduzida por Tarbos e Sem-Rosto. Em seguida, Mars liderará o ataque definitivo com o apoio dos nossos quinhentos Escudos de Mitral. Aliás, Majestade, tem algo que gostaria de perguntar-lhe, sem mais demoras.

- Diga, caro varão.

- Esta campanha usará nossa capacidade máxima, que é necessária para a rapidez e eficiência que exiges. Mas, isso não tornará o reino vulnerável aos rebeldes, que a cada dia crescem em número?

- Meu caro General Warman, asseguro-te que nem mesmo os rebeldes de quem tanto temeis investidas tão audaciosas irão contrariar nosso sucesso na campanha vindoura, e se mesmo assim continuarem em seus desvarios, serão rechaçados pelos meus próprios súditos, que me aclamarão como seu líder no início de uma nova época de glórias para Trenet.

- Se tu o dizes, ó Escolhido dos Deuses, então eu obedeço fielmente.

- Muito bem – disse Ramon, esfregando as mãos com satisfação – então tudo o que precisamos é…

Sua entusiasmada frase foi interrompida pela entrada repentina de um capitão dos Mastins de Trenet.

- Salve Vossa Majestade, o Escolhido dos Deuses, Detentor do Nobre Sangue. – disse o esbaforido capitão, e em seguida virou-se para Juan Warman, prestando continência.

- Muito bem, cão – disse Ramon, evidentemente enraivecido – diga a que veio, para ser motivo de tão abrupta interrupção de uma conferência da mais suma importância.

- Majestade, primeiro quero falar-te do que me diz respeito: não fui eu quem praticou essa ação, nem nenhum de meus comandados, e nem sabemos quem foi. E não há razão para eu cair em desgraça.

- Não há dúvidas que atiras bem e fazes boa autodefesa em volta do caso. Mas é evidente que tens algo de novo para contar.

- O perigo é a causa de tanta hesitação.

- Acabarás finalmente por dizer, e por ires embora, depois?

- Enfim, vou dizer-te, ó Escolhido dos Deuses. Há pouco ainda, alguém deu sepultura ao cadáver do Paladino de Prata no Reino dos Vermes e se retirou, espalhou sobre o corpo o pó seco e fez-lhe as oferendas fúnebres que são devidas.

Ramon levantou-se bruscamente do trono.

- Que dizes!? Quem dentre os homens ousou cometer tal feito? – gritou o monarca.

- Não sabemos, Majestade. Não havia lá sinais de machado nem terra que a enxada amontoasse. O solo, duro e seco, não estava sulcado pelo peso das rodas; quem quer que tivesse sido o autor da obra não deixara vestígios. Quando o primeiro sentinela nos mostra, já estava lá aquele prodígio, embaraçoso para todos nós. O cadáver estava invisível, não enterrado com tudo, mas tinha por cima uma fina camada de pó, como de alguém que a colocasse apenas para evitar que seu espírito vagasse eternamente pelo Limbo entre a quase – vida e a quase – morte. Não havia vestígio da passagem de qualquer animal selvagem ou de cães, nem tinha aspecto de ter sido dilacerado. Entrechocavam-se as palavras entre meus comandados, cada um acusando o outro, do modo fiel e honroso com o qual nós, os Mastins de Trenet, servimos ao reino e a Vossa Majestade. E teria havido conflito entre eles, se eu não tivesse pulso firme naquela hora. Estavam eles prontos a levantar ferro em brasa com as mãos, e a atravessar as chamas, a jurar pelos deuses que não tinham praticado aquela ação, e nem tinham sido cúmplices. Assim, o melhor que decidi fazer foi contar-te, e aqui estou, embora saiba que agora me tenhas desgosto, pois ninguém gosta daquele que traz más notícias.

- Majestade, meu espírito pondera se por acaso este feito não será obra dos deuses. – disse Juan Warman, pensativo.

- Cala-te, varão, antes que tuas palavras me encham ainda mais de cólera, para que não sejas um insensato. – disse Ramon, ainda bastante exaltado - Pois não se pode suportar que tu, tu que deténs o maior título abaixo de mim neste reino, que tu digas que as boas divindades possam ter cuidados com este ímpio cadáver. Acaso o cobriram por haverem especialmente como seu benfeitor aquele que vinha para lançar fogo contra os alicerces da ordem estabelecida e do próprio trono daquele que eles escolheram como sendo o rei deste reino aliado a eles mesmos? Já viste os bons deuses prestando honras aos maus? Não!! Mas é que antes já existam, e ainda existem, homens deste reino tolerando mal minhas ordens e decretos, se agitam contra mim, meneando a cabeça, e não conservam sua baixa condição e a cerviz sob meu jugo, como deviam, respeitando o Detentor do Nobre Sangue. Sei bem que os vis que praticaram este ato foram subornados pelos salários daqueles que contra mim conspiram em cada esquina das cidades e aldeias deste reino. Entre os homens não germinou ainda instituição tão perversa quanto o dinheiro. É ele quem destrói cidades e reinos, ele que arranca bons homens de seus lares; ele que alicia um caráter honesto a cometer ações vergonhosas e desonrosas. Mostrou aos homens como praticar vilezas e deu-lhes o conhecimento de toda espécie de impiedade. Porém, no meu reino, todos os que a ele se vendem, acabam por conseguir sua vantagem: a morte, rápida e sem piedade.

Ramon virou-se para o atônito e apavorado capitão Mastim:

- Quanto a ti, cão, tens sorte, já que Leonar e Kolthar ainda são senhores de minha veneração e aliados de meu reinado. Fica sabendo bem, que dou-te mais uma oportunidade de cumprir com teu dever perante teu senhor, e é sob juramento que te afirmo: se não encontrardes o maldito verme que cujas mãos imundas fizeram essa profana sepultura, e não me apresentardes diante de meus olhos, o Mundo dos Mortos não será o bastante para ti e teus comandados, pois tua falha demonstrar-me – á claramente que de tua condição honrosa de Mastim fizeste vileza, e que fostes tu e teus companheiros os chacais que cometeram tal feito. Vós sereis executados lentamente e suas carcaças sarnentas e malditas terão o mesmo destino que o falso paladino, aquele traidor imundo; porém, quanto a vós, assegurar-me – ei pessoalmente que ninguém vos faça honrarias, nem sepultura, nem que chorem por vós. Servirão de exemplo, para que o povo deste reino fique avisado de onde deve e de onde não deve extrair seus ganhos, e para que saiba que não se deve tirar lucro de toda e qualquer origem. Por causa de aquisições vergonhosas é que muitos se vêem mais na desgraça do que na prosperidade.

- Concedes-me que diga alguma coisa, ou devo ir embora para cumprir meu dever? – perguntou o capitão, suando frio, com o corpo trêmulo.

- Não sabes como ainda agora tuas palavras me incomodam? – retrucou o rei, raivosamente.

- São os teus ouvidos ou tua alma que eles afetam?

- Para que queres definir bem de onde vem meu aborrecimento?

- O feito aflige-te o espírito, os ouvidos sou eu que os perturbo.

Ramon, furioso, bate palmas violenta e vigorosamente.

- Veja, General Warman de Wharm! Que tremendo falador teu Mastim está me saindo! – disse Holtor, cada vez mais nervoso.

- S…seja como f-for, o certo é que não sou eu o autor deste feito! – disse o Mastim, ainda mais apavorado.

- E o que é pior, traindo teu rei e arriscando a tua vida e de teus comandados por algumas moedas! Anda, enfeita tuas sentenças. Mas guarda minhas palavras, se não me mostrardes os que praticaram a ação, terás o mesmo destino que eles!!

O capitão, percebendo que pioraria ainda mais sua situação e de todos os seus companheiros se continuasse esse debate desigual, retirou-se às pressas. Ramon suspirou profundamente, e controlou sua raiva. Em seguida, levantou-se do trono, e falou uma vez mais com Warman:

- E tu, General dos meus exércitos, embora tenhas em ti a mais firme confiança, vou lembrar-te de uma coisa.

- Que queres recomendar a este humilde servo de tua vontade, ó Detentor do Nobre Sangue?

- Que não vos junteis aos que desobedecem às minhas ordens.

- Não há ninguém sensato que seja tão louco que deseje a morte.

- Pois então muito bem; guarda minhas palavras: muitas vezes a esperança do ganho, ainda que pérfido, aniquila os homens. Quanto a mim, retirar-me – ei aos meus aposentos, pois a madrugada avizinha-se, e amanhã teremos uma Corte da Traição.

- Vossa Majestade irá mesmo convocar tão alta cerimônia?

- Sim, pois já é chegada a hora de mostrar a este povo que meu punho é firme como o aço, e minha visão de juiz e rei infatigável os inspirará a obedecerem-me em uma eventual crise.

- Majestade, mas para tanto, precisas do acusado, de um culpado.

- E eu o tenho. Se aquele cão sarnento não capturar o maldito que cometeu o crime até que venha o meu despertar, ele será o culpado. De uma forma ou de outra, a Corte da Traição acontecerá.

- Entendo. Tenha uma boa noite, Majestade.

- Outro tanto lhe desejo, caro General Warman de Wharm.

Assim, o rei Ramon Holtor retirou-se para uma tranqüila noite de sono, com a qual a esmagadora maioria dos habitantes da mesma cidade sequer poderia sonhar. Juan Warman permaneceu acordado algum tempo após o monarca retirar-se, como se esperasse por alguma coisa. O grande estrategista previu exatamente o que estava por vir.

Durante a madrugada, o capitão Mastim adentrou a sala do trono, com Erika algemada logo atrás dele. Juan Warman estava lá, andando a passos calmos e pausados, parecendo meditar sobre algo. Quando viu o Mastim conduzindo a irmã de Ramon Holtor tal qual uma prisioneira vulgar ele parou.

- Eis a autora do feito. Apanhamo-la no ato de dar sepultura ao paladino. Mas onde se encontra nosso rei? – indagou o capitão.

- Com que motivos, desgraçado, a trazes dessa maneira? – disse Juan, empurrando bruscamente o Mastim e soltando as algemas de Erika, que mantinha-se com a cabeça baixa.

- Senhor, era ela que estava sepultando o Paladino de Prata, Albrecht MacDougall!! Ficaste agora sabendo de tudo!

- Acaso estás a exprimir e compreender corretamente o que me dizes?

- Sim, General, é a mais pura verdade.

Erika recolocou as algemas rapidamente, e disse rispidamente ao capitão:

- Anda, palerma! Leva-me ao meu irmão, para que tenhas que julgar-me e condenar-me à morte!

Juan pareceu entender o que acontecia, e preferiu não intrometer-se mais do que achava conveniente. Mas ainda assim, falou:

- Capitão, leve a Detentora do Nobre Sangue às masmorras reais. Dê-lhe uma cama confortável e alimentos quentes, pois deverás ela estar revigorada para o dia de amanhã.

- Mas Vossa Majestade disse que queria ver o autor do feito ainda nesta madrugada! – respondeu o Mastim.

- Não é de teu conhecimento, mas fica sabendo que a autora do feito será submetida a uma Corte da Traição amanhã. Por isso, leva-la às masmorras.

- Sim, meu General. – disse o capitão, conduzindo Erika para fora da sala do trono.

Depois que a sala permaneceu absolutamente vazia, com exceção de Juan, ele disse algo:

- Serão dias de tribulação para todo o reino, sem dúvida.

E retirou-se para seus aposentos.

No dia seguinte, os Mastins de Trenet entraram em cada casa de cada família de Golthorny, para que todos comparecessem em praça pública, onde montou-se um suntuoso tribunal improvisado. Ramon Holtor estava lá desde as primeiras horas do dia, vestido mui nobremente, com a armadura negra e púrpura dos primeiros reis de Trenet, e com o manto com os símbolos de Kolthar, deus da Justiça, e Leonar, deus da Vida. Juan Warman estava presente, bem como o capitão Mastim que prendeu Erika e a própria Erika, irmã mais velha de Ramon. Do alto de sua condição real, bem de onde estava, Ramon fitava de modo odioso sua irmã, como se a odiasse mais do que tudo no mundo.

- Como te sentes agora, traidora de teu sangue? Serás julgada e acusada por mim ao mesmo tempo.

Erika nada disse, e permaneceu assim, ouvindo calada os insultos de seu irmão, até que toda a população da cidade compareceu à Praça dos Dois Pioneiros. Quando o tenente Mastim encarregado da contagem e fiscalização dos que estavam lá deu o sinal, Ramon começou a Corte da Traição.

- Povo de Unido de Trenet, eu vos convoco a mais uma Corte da Traição. Como vós sabeis, ontem um traidor imundo, que considerávamos o mais nobre dos heróis, demonstrou sua vileza, quebrando os desígnios reais e os decretos reais, que têm a aprovação irrestrita dos bons deuses. Para que servisse de exemplo aos demais pérfidos que conspiram contra nossa glória, decretei sua morte, e enviei sua carcaça ao Reino dos Vermes, para que sua alma jamais tivesse descanso. Porém, como vós acompanhareis nesta Corte, esta, esta que era minha querida irmã, ousou trair-me, sepultando o maldito, e fazendo com que sua alma pecadora fosse engrossar as fileiras demoníacas de Nosrredram. – disse Ramon, com uma espada longa ricamente adornada em punho, apontando para Erika. – Capitão Gerd Scholers, dê ao Povo Unido de Trenet teu testemunho, já que foste tu, nobre Mastim, que a apanhaste neste ato de perversidade. – disse, dirigindo-se ao capitão.

O Mastim levantou de sua cadeira, e iniciou seu testemunho:

- Povo Unido de Trenet, Vossa Majestade e os bons deuses, que estão observando esta Corte, o caso foi o seguinte: quando meus comandados e eu chegamos, sob a desonra de termos falhado para com nossa vigilância, retiramos todo o pó que recobria o cadáver, desnudando bem o corpo em decomposição. Sentamo-nos no alto de uma colina, contra o vento, para evitarmos que o seu odor nos atingisse, cada Mastim alerta, esporeando os outros com os perigos clamorosos, se algum descurasse aquela tarefa. Assim estivemos algum tempo, até que a chuva cessasse seu pranto, e um vento frio cortava nossos corpos e espíritos naquele lugar funesto e amaldiçoado. Então, de súbito, o vento tornou-se extremamente forte, tal qual uma terrível tempestade, tormento da atmosfera, que atulhou a planura, maltratando tudo o que havia, e enchendo o ar imenso. De olhos cerrados, enfrentamos aquele verdadeiro flagelo dos deuses. Chegamos a cogitar que os deuses do Mundo Inferior teriam feito aquela sepultura. Porém, quando cessa o vento, vê-se a nobre donzela, a Detentora do Nobre Sangue, que solta um gemido amargurado, um som agudo de ave que fita seu ninho vazio, órfão de seus filhos. Assim ela, ao ver o cadáver, rompeu em gemidos, lançando maldições terríveis sobre quem havia cometido tal feito. Imediatamente, leva às mãos o barro encharcado daquela terra imunda, e, erguendo o vaso de bronze fúnebre, ricamente trabalhado, presta honras ao cadáver novamente, finalizando o rito de sepultamento. Ao ver isto, logo precipitamo–nos, e logo a capturamos, com a cautela de não feri-la, quando notamos sua real descendência. Acusamo-la das ações passadas; ela não negou coisa alguma, para prazer e pesar meu ao mesmo tempo. Porque isto de lograr cumprir um dever ao reino e ao nosso rei é o melhor que há; mas é penoso levar à ruína aqueles que estimamos. Porém, tudo isto vale menos para mim do que a honra e glória de nosso reino.

Ramon agradeceu ao capitão Mastim por seu testemunho. Em seguida, virou-se para Erika.

- E tu, tu que voltas o rosto para o chão, dizes ao Povo Unido Trenetense, se afirmas ou negas o teu ato? – perguntou ele.

Erika levantou sua cabeça, fitando diretamente os olhos de seu irmão.

- Afirmo que o pratiquei, e não nego que o fizesse. – respondeu ela.

Ramon tremeu ao ver atitude tão inesperada contra ele. Voltou-se para o capitão Mastim.

- Nobre Gerd Scholers, capitão Mastim, tu já estás livre de tuas obrigações para com esta Corte; podes ir para onde quiseres. – disse, e em seguida voltou-se novamente para Erika. – E agora, traidora, diz ao Povo Unido de Trenet, sem demora, em poucas palavras: sabias que fora proclamado um édito proibindo tal ação? Se eras ignorante, podes ser absolvida neste momento, pois não foste traidora, no final das contas.
Suspiros de alívio vieram da gigantesca multidão de súditos, como que agradecendo por esta salvação vindoura para a princesa tão querida. Porém, cessaram abruptamente, substituídos por expressões de surpresa e pesar quando ouvida foi a resposta de Erika:

- Sabia. Como não havia de sabê-lo? Era público.

Ramon novamente não esperava tamanho desafio à sua autoridade. Pela primeira vez, em quase nove anos de reinado, havia sido desacatado desta maneira. Sentia que estava perdendo o controle da situação. Assim, quase explodiu em raiva.

- E ousaste, então, tripudiar sobre estas leis?! – perguntou ele, nervoso.

Erika, de modo altivo e sereno, demonstrando sua maior semelhança com seu pai, Christopher, do que seu irmão, levantou de sua cadeira, de maneira que pareceu superior a Ramon.

- É que as tuas leis não foram Leonar nem Kolthar que as promulgaram para o Povo Unido de Trenet. E eu entendi que teus éditos e decretos não tinham tal poder, que um mortal pudesse sobrelevar os preceitos, não escritos, mas incontestáveis e imutáveis, dos bons deuses. Porque esses não são de agora, nem de ontem, mas eternos, e nenhum mortal pretensioso sabe quando surgiram. Por causa de tuas leis absurdas, não queria eu ser desonrosa perante os bons deuses, por ter temido a decisão de um reles homenzinho mimado. Eu já sabia que haveria de morrer um dia, mesmo que não tivesses proclamado teus éditos. E se morrer antes do tempo devido, direi que isto é para mim uma vantagem. Quem vive em meio a tantas calamidades, como eu e todo o povo de Trenet, como não há de considerar a morte, sobretudo honrosa, um benefício? Se eu sofresse que o cadáver morto de meu irmão mais querido ficasse insepulto, em qualquer lugar não amaldiçoado como o Reino dos Vermes, por ter feito atos desonrosos, não iria doer-me tanto desta forma. Porém, visto o fato de que o filho mais querido deste reino foi morto injustamente, e ainda o meu irmão de sangue quis privá-lo de seu merecido descanso, dói-me como a pior das queimaduras. E se agora, te pareces que cometi um ato de loucura, talvez louco seja aquele que como tal me condena.

O povo presente manteve-se quieto enquanto Erika falava, e quando ela acabou, alguns gritaram palavras de ordem no meio da massa popular, atônita demais para reagir a estes poucos corajosos. Estes, porém, foram detidos rapidamente pelos Mastins de Trenet, e conduzidos à prisão, que encontrava-se próxima à Praça dos Dois Pioneiros. Juan Warman ficou teso em sua cadeira.

- Indomável revela-se a vontade da Detentora do Nobre Sangue, de indomável reino nascida. Não aprendeu a curvar-se perante a desgraça. – disse o General da Milícia Trenetense.

Ramon olhou imediatamente para Juan depois de ele ter dito estas palavras, e se seu olhar tivesse lâminas, o General estaria retalhado no mesmo instante. Dirigiu o mesmo olhar para Erika, desafiadora em sua posição. Em seguida, respirando pausadamente, controlando seu ódio, respondeu:

- Mas fica sabendo que os espíritos demasiado obstinados são os que mais depressa sucumbem, e o mais sólido ferro, levado ao rubro e endurecido pelo fogo, é freqüente a reduzir-se em pedaços. Sei bem que com um pequeno freio se subjugam os cavalos fogosos. E não costuma ter pensamentos altivos quem é escravo daqueles que lhe estão próximos. Esta aí soube ser bem insolente quando tripudiou sobre as leis estabelecidas, que têm, e sempre tiveram, a aprovação dos bons deuses. E depois de ter feito isso, comete nova insolência, vangloriando-se da sua ação e rindo de a ter praticado. Porém, é ela que será um rei e um homem, e não eu, se lhe deixo esta vitória impunemente. Pode ela ser minha irmã, filha de meu pai, ou mais próxima de mim do que qualquer outra pessoa neste mundo. Ela e sua serviçal não escaparão à pior das sortes. – disse Ramon, e em seguida, dirigiu a palavra a seus dois Mastins de confiança. – Tragam–na, porque eu a acuso igualmente de ter conspirado contra mim, pois eu a vi pouco antes de sair, na cozinha, em delírio, sem dominar a razão. É que a alma daqueles que tramaram o mal na sombra acusa–os do crime antecipadamente. Mas o que mais abomino é que quem foi apanhado em flagrante delito ainda por cima se vanglorie disso.

- Intentas algo mais do que prender-me para me matar? – perguntou Erika.

- Eu não. Com isso dou-me por satisfeito. – respondeu Ramon, friamente.

- Então, por que hesitas? Assim como de tuas palavras há muito não me vem deleite algum, nem jamais poderá vir, assim também o meu parecer te é desagradável por natureza. E, contudo, o que de melhor poderia eu fazer por este nosso povo, o nobre Povo Unido Trenetense, do que alertá-los de que tu estás à beira da insanidade? De como condenas o maior de todos os heróis trenetenses, apenas porque ele cumpriu seu dever como paladino do Criador, e isso feria uma de suas leis imbecis sobre impostos e taxações sem sentido algum? Sobre como intentaste torturá-lo por toda a eternidade, não bastando dar-lhe um fim inglório? Todos os que estão aqui diriam também como aprovam meus atos, se o medo não lhes travasse a língua. Mas é que a realeza, entre outros deploráveis privilégios, goza o de dizer e fazer o que bem lhe apraz.

- Dos Filhos de Trenet, és a única a encarar os fatos desta maneira.

- Estes também, mas refreiam a boca na tua presença.

- E tu não tens vergonha de pensares de maneira diversa?

- Não é opróbrio prestar honras aos que nasceram do mesmo solo.

- Mas então, como podes prestar boas homenagens àquele que foi ímpio?

- Ímpio porque tu o dizes, pois não é este o testemunho que o Povo Unido de Trenet tem dele; e mesmo que o fosses, os bons deuses exigem que todos, justos e ímpios tenham o mesmo ritual.

- Mas ao honesto não compete o mesmo que ao malvado.

- Quem sabe se debaixo da terra isso não é exato.

- O inimigo jamais se tornará amigo, nem depois de morto.

- Vês o que dizes, irmão? Percebes o que falas sobre aquele a quem já chamou de irmão? Teu maior amigo na infância? Se não estivesse contigo todos os dias, diria que és um impostor, ou que um demônio apossou-se de teu espírito!

- Sim, aquele a quem eu estimava, e que pensei que tinha-me em igual condição. Como alguém pode não odiar aquele a quem menos se esperava tamanha insubordinação?

- Não nasci para odiar meus semelhantes.

- Agora que vais lá para baixo, ama – o, se amar se deve; mas, enquanto eu for o rei do Povo Unido de Trenet, não será uma mulher traidora quem me dará ordens.

Após estas palavras, a serviçal de confiança de Erika, Roselyn, aparece no tribunal montado em praça pública, trazida por dois Mastins. Eles a algemaram em uma cadeira. Calada e tensa, esperou a sentença mortal do rei.

- E tu, que andavas a envenenar-me sem eu saber, tal como uma víbora que se insinuasse em meu palácio, sem que eu me apercebesse de que estava a alimentar sublevações para subverterem meu trono, anda, diz ao Povo Unido de Trenet, diz se também afirmas a parte que tomaste nesta profana sepultura ou se juras pelos bons deuses não ter tido esse conhecimento? – indagou Holtor, inquisitivo, com a espada apontada para Roselyn.
Roselyn olhou pela primeira vez para Ramon como um garotinho pretensioso, o que lhe fez ter coragem para desafiá-lo:

- Eu pratiquei este ato, tal como minha senhora, verdadeira Detentora do Nobre Trono; colaborei com ela e participo, e agüento a acusação. – disse a dama.

Erika reagiu a isto imediatamente:

- Porém, não te permitirá a Justiça de Kolthar, pois nem quiseste, nem eu te dei parte nele.

- Mas não me envergonho de navegar contigo neste mar de calamidades. – replicou Roselyn.

O povo ali reunido pareceu estar cada vez mais a perder o rumo do que acontecia, como se estivessem acordando de um longo sono. Como dantes, corajosos apoiaram Erika a toda a força de seus pulmões, dizendo que, a exemplo de Roselyn, queriam partir como Erika; porém, agora não eram poucos, e toda a Milícia ali presente demorou um tempo considerável para prender a todos os que se pronunciaram. Quando o fizeram, o julgamento recomeçou.

- Esta traidora há pouco pareceu-me insensata; mas a outra, pelo jeito, o foi desde que nasceu. – disse Ramon, que estava atento ao debate entre as duas.

- Não me impeças, minha senhora, de morrer contigo e de purificar o que morreu. – disse Roselyn.

- Não queiras partilhar a minha morte, nem faças teu aquilo em que não tocaste. Para morrer, basto eu. – respondeu Erika.

- E que me importa a vida, minha senhora, se tu me deixares? És minha única amiga, minha única família. Por que insistes em recusar minha ajuda?

- Salva-te a ti mesma. Não te invejo a fuga.

- Desgraçada de mim, então ser-me – á negado teu destino?

- Tu escolheste viver, e eu morrer.

- Mas não sem que eu lhe dissesse o que eu pensava.

- Para esses és tu que pensas bem; para aqueles, julgo ser eu.

- Então nosso erro é equivalente.

- Então, foi por causa de teus erros traidores que estavas de razão turva nesta manhã? – intercedeu Ramon

- Perante as calamidades, Ramon Holtor, filho de Christopher Holtor e irmão de Erika Holtor, o senso que era inato não permanece, mas afasta-se. – respondeu Roselyn, ainda mais desafiadora.

- De ti, pelo menos, maldita traidora insolente, quando optaste por praticar o mal com os possessos.

- Como posso eu viver sozinha, sem ela?

- Não fales dela, porque ela já não existe. – disse Ramon, encerrando a conversa. – Mastins! Levem – as para os calabouços do palácio, para que esperem minha sentença. – continuou, dirigindo-se a seus guardas.

Assim que terminou de dizê-lo, um dos capitães Mastins chegou ao monarca, para trazer-lhe uma notícia totalmente inesperada:
- Vossa Majestade, Dean MacAberdeen, nobre detentor das terras do Norte, Aberdeenshire, está vindo saudá-lo. Devo deixar que suba até a tribuna?

- O que dizes, Mastim? MacAberdeen está aqui? – indagou Ramon, totalmente surpreso.

- Sim, Majestade. E quer falar com o Detentor do Nobre Sangue urgentemente.

- Pois deixe – o vir até mim.

- Mas mesmo no meio de uma Corte da Traição?

- Não ouviste o que eu te disse, homem?

- Sim, Majestade. Imediatamente, Escolhido dos Deuses. – assentiu o capitão, dando o sinal para seus companheiros logo adiante.

Os Mastins abriram caminho entre a multidão agitada, com certa dificuldade. Mas quando a população soube que tratava-se do prometido que iria desposar Erika, abriram-lhe espaço como fosse o próprio rei de Trenet – reação essa que esquentou ainda mais os ânimos de Ramon.

Dean subiu na tribuna, curvando-se perante Ramon, e saudando – o com os cumprimentos tradicionais dos nobres trenetenses – um aperto de mão, seguido de uma mútua mão no ombro direito de ambas as partes, finalizando com um abaixar de cabeças.

- Saúdo o Escolhido dos Deuses, Detentor do Nobre Sangue, Majestade de Trenet. – disse Dean.

- Igualmente o saúdo, detentor das terras nobres e míticas de Aberdeenshire, membro do respeitado clã MacAberdeen. – respondeu Ramon.

- Eu vim de surpresa, para trazer presentes para minha prometida, e fixar a data de nosso casamento. Porém, assim que cheguei aqui, os aldeões contaram-me sobre o que aconteceu, e o que estais fazendo com Erika.
Ramon mudou seu semblante, ficando mais tenso.

- Meu bom varão, por acaso estás aqui para atacar teu rei, sem prestardes ouvidos acerca dos decretos fixados nos últimos dias, e sobre como tua noiva insolentemente os desacatou? Não esperavas que, apenas porque ela é uma Detentora do Nobre Sangue, escaparia à sorte de qualquer outro trenetense, esperava? Ou estima-me sempre, em todos os meus atos?

- Pertenço-te, Vossa Majestade. E tu, que tens apenas nobres pensamentos, regulas os meus para eu os seguir. Na verdade, não há casamento algum que pareça superior a ser por ti ordenado.

- Assim, meu bom varão, é que tu deves fazer – colocar a opinião de teu rei acima de tudo. Por isso os homens fazem votos para gerar e ter em suas casas filhos obedientes, que os defendam dos inimigos e do mal, e que honrem os amigos da mesma forma que os pais. Porém, quem cria filhos que não o ajudam, que outra coisa poder-se – á dizer dele, senão que arranjou trabalhos para si e motivos de escárnio para seus inimigos? Por isso, meu nobre, não sacudas o jugo da razão por causa de uma víbora em forma de mulher, ciente de que se tornam frígidos os amplexos, uma fez que a companheira de leito não passa de uma conspiradora perversa. E que ferida maior pode haver que ser perversa aquela a quem amamos? Despreza – a, deixa – a desposar um demônio maldito qualquer no Mundo Inferior de Nosrredram, como inimiga que é. Em todo o reino, foi ela a única a desacatar meus decretos e leis, em ato flagrante de desobediência. Não farei passar por mentiroso perante meu reino e o Povo Unido Trenetense. Antes, vou matá-la. Sobre isto, ela bem pode invocar um deus qualquer da consangüinidade. Porque, na verdade, se eu deixar que meus parentes mais próximos sejam desordeiros e traidores, ainda mais serão os de fora. Guarda minhas palavras: o monarca que for firme com os de sua própria casa, demonstrará sua justiça, firme e implacável, para todo o reino. De um homem assim, confio que será um bom governante e consentirão os súditos as suas ordens, e, colocado no meio de uma tempestade de lanças envenenadas com o pior dos venenos malignos, permanecerá um combatente justo e corajoso.

Alguns poucos na multidão aclamaram as palavras de Ramon, com o que ficou ele muito satisfeito.

- Majestade, a mim me afigura, se a lealdade não me ilude, que te exprimes sensatamente sobre o assunto. – disse Juan Warman.

Com esta opinião do homem que provavelmente é o mais astuto de todo o reino, Ramon sentiu que, finalmente, recuperava a autoridade que sua irmã o havia tirado.

- Majestade, de quantos bens os bons deuses outorgaram aos homens, dizia meu pai, George MacAberdeen, o raciocínio é o mais excelente. Nem eu poderia saber ou afirmar que não tens razão de falar assim. Contudo, também pode ocorrer por outra via um pensamento aproveitável. Ora, é natural que eu vigie quanto dizem ou fazem ou têm a censurar, porque o teu aspecto é terrível para os homens do povo, ante aquele gênero de palavras que não te apraz ouvir. Mas a mim é-me dado escutar na sombra como a cidade de Golthorny lamenta minha noiva, porque, mesmo depois de ter praticado ações da mais alta honradez, gloriosas, vai perecer de tal maneira, ela, que de todas as mulheres, era quem menos o merecia. Ela, que não consentiu que seu amigo de infância, e maior herói do reino, ficasse insepulto, e fosse destruído pelos cães vorazes ou por alguma ave de rapina. Não é ela digna de receber as mais altas honrarias? Eu, por mim, sentir-me – ei o mais feliz dos homens quando casar com uma mulher assim. Tais são os murmúrios obscuros que em silêncio vejo difundirem-se com força cada vez maior entre todo o povo do reino. Para mim, Majestade, não há bem maior e mais precioso do que a felicidade de minha noiva. Mas, também para mim, a maior das glórias é a prosperidade de meu monarca. Por isso, digo-te como servo leal que procuro ser: não tenhas pois um só modo de ver; nem só o que tu dizes está certo, e o resto não. Porque quem julga que é o único que pensa bem, ou que tem uma língua ou um espírito como mais ninguém, esse, quando posto a nu, vê-se que é oco. Mas não é vergonha que um homem, ainda que seja sábio, aprenda muita coisa, e não distenda demasiado a corda. Bem vês que nas torrentes invernais de minhas frias terras, quando as árvores cedem, os ramos se salvam: quem oferece resistência, perde-se com as próprias raízes. Do mesmo modo, quem distender a poderosa cordagem da nau e não ceder em nada, há de ficar voltado para baixo, e navegar para sempre com os bancos dos remadores virados ao contrário. Mas domina tua cólera, modifica teu ânimo. Se, portanto, eu posso, apesar de não ser o Escolhido dos Deuses, apresentar uma opinião boa, direi certamente que vale mais aquele homem que por natureza é mais dotado de saber em tudo; se, porém, assim não for – pois é costume a balança não se inclinar para este lado – é belo aprender com aqueles que falam acertadamente.

O povo aclamou os argumentos de Dean, de uma forma que, se os Mastins quisessem prender os “subversivos”, nem todas as masmorras da cidade seriam capazes de suportá-los – o que deixou Ramon mais inseguro do que nunca, e instigou seus ódios e receios em relação a MacAberdeen.

- Majestade, se ele dissertou com prosperidade, é natural que tu aprendas com ele, e tu, Conde MacAberdeen, com teu rei, por tua vez; pois de ambas as partes se disseram palavras sensatas. – disse Juan Warman, em uma espécie de tentativa de acalmar os ânimos. Porém, tudo o que conseguiu foi esquentar ainda mais os ânimos de Ramon, que entendeu suas palavras como uma assertiva à argumentação de Dean.

- Com o que então devo eu, Detentor do Nobre Sangue, Escolhido dos Deuses, Líder do Povo Unido Trenetense, aprender com um mero nobrezinho das terras do norte? – disse Ramon, nervoso.

- Nada aprenderias que não fosse justo. E, se sou um mero nobrezinho das terras do norte, não é minha posição na nobreza ou ser ou não de linhagem real, mas as minhas ações que cumpre examinar. – retrucou Dean. O povo o aclamou novamente, e dessa vez, foi verdadeiramente ovacionado.

- “As ações” consistem então em honrar os traidores?

- Nem aos outros mandaria eu ter respeito pelos perversos.

- E então a tua noiva não foi atacada por esse mal?

- Não é isso que afirma o Povo Unido de Trenet.

- E o “Povo Unido de Trenet” é que vai prescrever-me o que devo ou não ordenar?

O povo presente vaiou fortemente o monarca, e as palavras de ordem contra ele começaram a surgir com uma força preocupante.

- Vês? Notas o tipo de reações que tua prepotência provoca? Falas como se fosse uma criança! – disse Dean, apontando para a multidão.

- É portanto a estes porcos imundos, e não a mim, que compete governar este reino?

- Não existe reino algum que seja pertença de só um homem.

- Acaso não se deve entender que o reino é de quem manda?

- Mandarias muito bem sozinho numa terra que fosse deserta.

- Este é um aliado da traidora, pelo que me parece!

- Se acaso tu és “uma traidora”, pois sou teu aliado, embora não o reconheças.

- Pelo menos tua argumentação era toda a favor de tua traidora.

- Sou aliado de minha noiva, e não de uma “traidora”. E de ti, e de mim, e dos bons deuses.

- Tu, que és escravo de uma mulher traidora, não estejas com branduras!

- Se não fosses meu senhor, diria que não estavas sendo sensato.

- Ah! Traidor! Entrando em questão com teu rei!

- É que te vejo falhar no cumprimento da justiça.

- É erro então ter respeito pelo soberano poder?

- Não tens respeito por ele, quando calcas a um verdadeiro servo dos deuses o direito de descansar com eles e os demais heróis.

- Oh! Veja, “Povo de Trenet”! Ele agora vale menos que a traidora!

- Bem sabes que meu clã jamais fraquejou perante o mal.

- A tua noiva, não há possibilidade de a desposares ainda em vida!

Dean repentinamente ficou tenso, como nunca antes.

- Se acaso usardes teu poder para matá-la, vais arrepender-se amargamente disso!

Juan retesou sua mão no cabo de sua lâmina, mas logo entendeu que a situação não chegaria a tanto. Preferiu continuar calado.

- Quê? A tua arrogância chega até às ameaças? – indagou Ramon, cada momento mais nervoso e irritado.

- Em que consistem as ameaças de falar contra sentenças ocas?

- Com lágrimas ganharás senso, tu que és oco de razão.

- Queres falar, e, depois, não ter que ouvir!

O povo aclamou novamente MacAberdeen, e alguns chegaram a aclama-lo como a um verdadeiro rei. Isso provocou a perda definitiva da calma e da frieza de Ramon, que reagiu imediatamente, desesperado em demonstrar sua autoridade:

- Sim? Pois, por Kolthar e Leonar, fica sabendo que não me ultrajarás com as tuas censuras impunemente. – respondeu Ramon, de maneira furiosa. Em seguida, dirigiu-se aos Mastins – Tragam aquela abjeta criatura, para que morra imediatamente pela minha lâmina diante dos olhos do noivo, e ao lado dele!

- Não de mim, com certeza, não o julgues jamais, nem ela perecerá perto de mim, nem de modo algum avistarás meu rosto, tenso e nervoso do jeito que estou. Não quero que ela me vejas assim, pois quando tudo isso acabar, teremos apenas momentos felizes, pois é isso que ela merece. Quero que ela guarde apenas boas coisas sobre mim, assim como não quero vê-la agora, do modo como deve estar. De qualquer forma, seu garotinho mimado, serás louco, sim, mas na companhia dos amigos que o queiram! – disse Dean, retirando - se da tribuna para montar seu corcel, sob forte aclamação da colossal massa popular ali presente. Juan Warman e Ramon Holtor ficaram sozinhos na tribuna. Era o momento do veredicto.

- Majestade, o homem partiu na vertigem da cólera; penso que, apaixonado como estás pela Detentora do Nobre Sangue, o ânimo é violento, quando sente a dor. – disse Juan, pensativo.

- Hmpf! Que vá embora para sua pífia terra no norte, e que premedite maiores enormidades do que qualquer homem; mas as duas traidoras, não as livrará do seu destino. – disse Ramon, ainda profundamente irritado com o povo, que o hostilizava cada vez mais.

- Pensas então em mandar matar a ambas?

- Não, apenas a que atuou. Dizes bem, realmente.

- E de que maneira deliberas matá-la?

- Levá-la – ei para onde o caminho estiver deserto de pegadas humanas, mais provavelmente no Reino dos Vermes, e ocultá-la – ei viva, em uma caverna escavada na rocha, dando-lhe de alimento só o necessário para fugir ao sacrilégio, a fim de que os súditos evitem qualquer contaminação com ela. E aí, se ela pedir a Nosrredram – único dos deuses que uma traidora como ela venera –, talvez lhe seja concedido não morrer, ou ficará finalmente a saber, embora tarde demais, que prestar culto a esse deus maldito é trabalho escusado.

Assim, Ramon dirigiu-se ao povo ali presente, comunicando o veredicto:

- Povo Unido de Trenet, agora eu, Monarca de Trenet, Detentor do Nobre Sangue, Escolhido dos Deuses, apresento – vos o veredicto: a acusada foi declarada culpada, e a punição será a morte por ostracismo em caverna lacrada, no Reino dos Vermes!

A reação do povo foi categórica: uma verdadeira chuva de ovos podres e alimentos estragados contra Ramon e Juan, que tiveram de sair às pressas do local, para que não fosse alvejados pela massa popular, que exigia a soltura imediata de Erika. Alguns, mais radicais, exigiam até mesmo a renúncia de Ramon, e que sua irmã fosse sagrada rainha em seu lugar. Os Mastins retrocederam até o palácio real, onde lacraram o Portal dos Dois, com representações de Kolthar e Leonar. Ramon e Juan entraram primeiro, escoltados pelos Mastins de confiança de Ramon.

No palácio, Ramon decidiu por deixar os portais lacrados, até que o povo esquecesse o ocorrido. Tinha convicção de que logo a população trenetense ignoraria o acontecido, levando suas vidas pacatamente, como sempre.

Infelizmente, para ele, essa idéia era completamente equivocada.

A Queda

Ao contrário das expectativas de Ramon, após passados três dias, o povo de Trenet, sobretudo e principalmente em Golthorny, ainda estava em um ponto de quase guerra civil. Os Mastins, ora prendiam os que eram considerados líderes, ora eram rechaçados pela população. O mais certo é que não haviam líderes de fato – afinal, todos os habitantes de Golthorny haviam visto a Corte da Traição, e nenhum deles aprovou o veredicto.

Dentro do palácio, Ramon e Juan discutiam formas de reverter a situação; porém, o desespero de Ramon crescia. Ambos, naquele fatídico momento, estavam na sala do trono, quando repentinamente, um mensageiro chegou, com notícias preocupantes para Ramon.

- Majestade, Detentor do Nobre Sangue, Escolhido dos Deuses, trago-te uma notícia das proximidades do distrito de Golthorny.

- São bons ou maus ventos, Mastim? – perguntou o rei, tenso e preocupado.

- Não creio que sejam bons ventos, Majestade.

- Pois não delongues demasiado a notícia, homem!
- O fato é que Dean MacAberdeen declarou estado de Desobediência Real a seus domínios e vassalos, o que significa que quase um terço de Trenet já não acata aos decretos e leis de Vossa Majestade.

Ramon pôs as mãos no rosto, em claro sinal de desespero. Fez um sinal com uma das mãos para que o mensageiro se retirasse, e em seguida, olhou para Juan, que estava pensativo.

- Que pensas fazer, Majestade? – perguntou o General.

- Não o sei. Nunca enfrentei nada assim.

Juan sentou-se de frente para Ramon, quase em tom de confiência.

- Majestade, permite-me que te digas o que deves fazer?

Ramon fitou demoradamente Juan. Finalmente, respondeu:

- De teus conselhos, não afastei-me até agora, Grande General de Wharm. Diz-me, o que faço?

- Apenas reflita, Majestade. Sabes que errar é comum a todos os homens. Mas, quando errou, não é imprudente nem desgraçado aquele que, depois de ter caído no mal, se emenda, e não permanece obstinado. A teimosia, meu senhor, merece o nome de estupidez. Anda, cede diante do morto, e não batas num cadáver. Qual é a valentia de matar de novo quem já morreu? Por pensar no teu bem é que eu falo. Nada mais agradável do que atender quem fala por bem, se é vantajoso o que diz.

- Tuas palavras, Warman de Wharm, são como arqueiros que atiram para este homem como para um alvo. Que poderia eu fazer? Ele transgrediu a meus decretos!

- Tua sentença à morte que deste a ele foi acertada, meu senhor; porém, guarda minhas palavras: os assuntos do Outro Mundo só compete saber aos deuses. Não era necessário privá-lo de sepultura, uma vez que isso é feito apenas aos homens da pior das índoles.

- Acaso sabes que, digas o que disseres, estás a falar contra quem está no poder?

- Sei, pois graças a mim é que vais salvar este reino do caos total em que tu mesmo o colocaste.

- Peço desculpas pelo que te disseste, General. Meus ânimos estão exaltados, por conta de situação tão difícil. Também eu o reconheço, mas a minha alma está agitada. Ceder é terrível para mim, mas está iminente a desgraça para calcar os pés a minha resistência. Só agora percebo o quão terrível tenho sido para esta terra.

- É preciso usar de prudência, ó Detentor do Nobre Sangue.

- Que devo então fazer para redimir-me? Explica-te, que eu obedecerei!

- Vai dar ordem para trazer a donzela da mansão subterrânea, ergue um túmulo àquele que serviu fielmente os propósitos dos deuses, e que agora, jaz por terra insepulto injustamente.

- Desejo muito fazer isso. Mas, tens certeza de que farias isso? É conveniente um rei ceder?

- Sim, e o mais depressa possível, Majestade, pois os flagelos dos deuses, com pés velozes, vêm atalhar o caminho dos maldosos.

- Se assim o colocas, grande estrategista, farei–o imediatamente! Abandono meus malditos propósitos anteriores para ceder!

- Vai então fazê-lo, e não delegues a outrem!

- Sim, agora mesmo! – exclamou Ramon, levantando rapidamente do trono, dirigindo-se a seus servos pessoais. – Ide, ide, servos, convoquem a todos, Mastins e serviçais da corte, tomai nas mãos enxadas, machados e pás para a sepultura; mas antes, precipitai–vos para o Reino dos Vermes, donde trarão o corpo de MacDougall, para que seja velado com todas as honrarias devidas a um verdadeiro herói, na Praça dos Dois Pioneiros. Diga aos que farão o sepultamento que o façam ao lado dos grandes heróis, no Mausoléu de Prata. Quanto à minha irmã, contra a qual fiz o pior de todos os crimes, assim como a prendi, também irei junto dela para a libertar. Por fim, quando saírem do palácio, declarem ao Povo Unido de Trenet que as leis divinas neste reino serão observadas até o final dos tempos.

Quando acabou de dizê-lo, chamou seus dois guarda costas de confiança, saindo do palácio real. Atravessando o Portal dos Dois, deparou-se com uma multidão, armada de foices, tridentes e tochas, que parecia esperar por ele.

Era o momento, a cena, que sempre povoou seus piores pesadelos. Mas, pela primeira vez, sentia-se em plena segurança para enfrentá-la.

- Vejam! É o maldito! Atreveu-se a sair de seu esconderijo! – berrou um deles.

- Ele veio nos enfrentar! Vai atiçar seus Mastins sarnentos contra nós! – gritou outro.

- Não! Esperem! Eu farei exatamente o contrário! Libertarei minha irmã, e sepultarei o Paladino de Prata com as honras que lhe são merecidas! – disse Ramon, rapidamente, para evitar um confronto, que certamente teria efeitos catastróficos.

- O que disse? – berrou um dos revoltosos. – Que vai voltar atrás em seu decreto?

- Sim, meu bom homem! Farei todo o possível para redimir-me de meus erros!

A multidão parecia estar surpresa, mas aos poucos, palavras de satisfação inundaram a frente do palácio real. Os populares ensaiaram uma saudação ao monarca, pela decisão de voltar atrás, quando um homem vestindo roupas vermelhas e brancas abriu caminho entre eles, querendo chegar ao rei, a todo custo. Era um Harpia, um bardo e espião a serviço da Milícia Trenetense. Por fim, conseguiu ficar perto o bastante de Ramon, para poder falar-lhe.

- Eu o reconheço! Tu fazes parte dos Harpias, não é, bardo? – disse Ramon.

- Sim, Majestade. E trago-te notícias que, antes poderiam ser boas, mas na atual conjuntura, é-te terrível para os ouvidos. – disse o Harpia.

- O que poderia ser assim tão terrível? Diga! Que pesado fardo é este que vens anunciar-me?

- Morreu – e os vivos são desta morte culpados.

- E quem é o assassino? Quem é a vítima? Diz!

- Erika pereceu nesta manhã. Sangrou por obra de uma mão que não é estranha.

- De quem?!?

- Ela a si mesma, pois era seu intento, se fosses condenada por ti.

- Grande General, como as tuas suspeitas se cumpriram exatamente!

- Majestade, as coisas são assim, e sobre elas há que deliberar.

Ramon nada disse. Permaneceu imóvel, uma expressão impassível, fitando o nada. Poucos segundos depois, desabou ao chão, de joelhos.

A multidão também calou-se por breves instantes. Porém, ao contrário de Ramon, que expressou seu desespero sem exaltações, o povo ali presente expressou sua indignação com uma furiosa manifestação.
- Assassino! Maldito seja! Fratricida! – gritavam os populares, avançando contra o monarca.

Os Mastins que ali estavam desembainharam suas espadas. Estavam prontos para matar ou morrer por seu rei, o fanatismo exposto flagrantemente em seus olhos, sedentos por sangue, e músculos retesados, preparados para qualquer coisa. No entanto, Ramon fez um sinal para que guardassem suas lâminas. Os Mastins, a contragosto, fizeram isso. Afinal, era exatamente isso o que eles eram. Aqueles homens já haviam perdido sua humanidade, apenas para serem como cães, fiéis, raivosos e terrivelmente fanáticos. Por essa razão, eram chamados de Mastins: essa raça de cão era a mais perigosa, mas também a mais fanaticamente leal a seus amos.

- Claro, ele sabe que nós iríamos passar por cima desses cães malditos!! – disse um dos revoltosos. – E agora nós vamos…

O Portal dos Dois abriu, e um homem imponente, de negros cabelos e longos bigodes, saiu de dentro do palácio real.

- Vocês não farão coisa alguma! – disse Juan, saindo do Portal dos Dois, interrompendo o aldeão. – Ele ainda é o rei de vocês! É exigência dos decretos reais e divinos que, aconteça o que acontecer, vocês não percam o devido respeito a ele!

- Ele perdeu o respeito por nós!! – disse um dos aldeões.

- E pelos deuses também!!! Não respeitou as leis divinas!!! – disse outro.

- Seus vermes!! Eu devia…

- General Warman… – interrompeu Ramon.

- Majestade?

- Tu, que conheces as leis reais e divinas melhor do que qualquer homem neste reino, responde-me, sem demora: um rei pode condenar a si mesmo?

- Sim, certamente. O que intentas, Majestade?

- E qual é a pior das condenações assim consideradas no códice de leis reais trenetenses?

- No último ano do reinado de teu pai, o rei Christopher, um decreto afirmou que a condenação chamada “Noivo da Sirene” seria a mais alta condenação a qual um homem poderia ser executado.

Ramon, ouvindo isto, levantou sem nada dizer. Olhou para o horizonte, para os Mastins, Juan e finalmente, para o povo, que estava apreensivo com a conversa entre o rei e o General. Enfim, levantou sua face, e levantou a mão direita, em claro sinal de decreto real.

- Pois então, decreto a pena do “Noivo da Sirene” para mim mesmo! – disse Ramon, decidido.

- Majestade!! Isso é…

- Loucura? General Warman de Wharm, quem é capaz de condenar à tortura eterna o maior herói do reino e amigo de infância, e pouco depois, decretar à morte sua própria irmã, poderia acabar de outra forma? Se sou o único, além dos deuses, que pode condenar-me, que assim seja. Esta é a única maneira de, mesmo depois de ter feito atos desonrosos, recuperar a honra perdida.

Juan esboçou uma reação, mas acabou por entender. Ademais, sabia que o jovem Ramon Holtor era obstinado, e nada o faria mudar de idéia.

Mas o povo não estava satisfeito. Queria mais. Queria que Ramon fosse entregue a eles.

- Nada disso!! Não vai morrer por teus decretos!!! Nós vamos condená-lo!!! – gritavam eles.

Juan entrepôs-se entre Ramon e o povo.

- Não farão coisa alguma!! – disse ele, exaltado.

- Saia da frente, General! Nem mesmo tua glória e honra salvarão este verme!!!

- Ouçam a vocês mesmos! Estão privando seu próprio rei do direito divino de redimir-se perante os injustiçados! Se ele quer a morte pelas sirenes, é exatamente isso o que será feito!
- E se nós não concordarmos com você?

- Então, abrirei caminho entre seus cadáveres, que certamente o serão, se tentarem impedir este homem de refazer sua honra! – respondeu o General, desembainhando sua espada ricamente ornamentada de gemas, que brilhavam com energia mágica.

Tal ato certamente fez com que os revoltosos pensassem duas vezes antes de fazerem o que intentavam. Pois Juan Warman de Wharm era um veterano conhecido em todo o continente, uma lenda viva, presente em grande maioria das baladas sobre aventuras de grandes homens. E, se uma dentre dez histórias sobre ele fosse verdade, provavelmente Juan seria capaz de dizimar todos eles sem nem ao menos suar.

- P-parece razoável… – ponderou um dos populares.

- Sim. Deixe–o fazer o que quiser! – disse outro.

Juan guardou sua lâmina. Em seguida, dirigiu-se aos Mastins.

- Comuniquem aos estudiosos da corte a decisão de nosso rei, e digam a eles para determinar a rota para a Região das Sirenes.

Os Mastins assentiram, e saíram para cumprir suas ordens. Juan acompanhou Ramon até as docas, e o povo os seguiu, como se fosse uma procissão ou um funeral.

E de certa forma, terminou por ser isso mesmo.

Em alguns minutos, os escolares da corte estavam presentes nas docas, passando instruções para os marinheiros sobre como deveriam posicionar a pequena embarcação de bronze, que era especialmente feita para conduzir os Noivos da Sirene. Tinha ornamentações de motivos marinhos, com representações de monstros marinhos e, na popa, de um homem e uma sirene de mãos dadas; porém, o homem era representado com roupas de lã, com os olhos fechados e com a mão direita no peito – a maneira da tradição trenetense de enterrar os mortos.

Juan dirigiu-se a um dos estudiosos.

- Está tudo feito? – perguntou ele.

- Na verdade, não há muito a fazer. A rota para a Região das Sirenes é conhecida, e apenas o que se precisa fazer é conduzir a barca para fora das correntes que a poderiam puxar para cá. A partir da Contra–Corrente de Bredenweard, a embarcação irá chegar até lá, dentro de três ou quatro dias – isso se uma tromba d’água não o pegar antes, já que o Mar de Donnwulf é assolado constantemente por estes fenômenos esta época do ano. – respondeu o sábio.

- Estou certo que nada irá impedir a chegada de nosso monarca até onde deseja. – ponderou Juan.

- Como podes ter tanta certeza?

- Os deuses não permitirão. Eu pressinto isso.

- Se tu o dizes…

Os marinheiros acabaram de preparar a embarcação, bem como as outras duas que iriam conduzi-la para o mar. Fizeram um sinal, comunicando que estava tudo pronto.

Vendo isso, Ramon foi até a barca. Demorou-se nela, como se a admirasse, explorando cada centímetro do casco reluzente, observando cada figura representada. Suas mãos passeavam pelos monstros marinhos, como se acreditasse que algum deles pudesse animar-se e devorá-lo, um alívio vindouro para sua dor. Parou na popa, olhando o casal que jazia na representação. Murmurou algo que poderia tanto ser uma curta canção ou uma oração. Então, olhou para todos os que estavam ali presentes.

- Povo Unido de Trenet. – disse ele, finalmente. – Vós estais aqui para presenciar e testemunhar a condenação de vosso rei. Guardem para todo o sempre minhas palavras: fui condenado, não por mim, mas pelos deuses. E, se eles decretam que devo ser executado pelas sirenes, então que assim seja. É determinado pelos bons deuses que um rei trenetense não deverá jamais morrer desonrado. E, agora que aqueles que desonrei estão mortos, a única forma de redimir-me e recobrar a minha honra e a deles é juntar-me a eles. Tal é a vontade divina, e tal será feito. Que eu seja o Noivo da Sirene.

Todos ficaram em silêncio. Do lado de fora da barreira formada por Mastins, alguém parecia querer entrar; porém, em uma condenação desta natureza, o monarca não deve ser incomodado.

- E como não desejo que meu último decreto como rei de Trenet seja a condenação de minha irmã, meu último decreto será a convocação de eleições populares diretas para o trono trenetense, do modo como foi feito nos primeiros anos deste reino.

Em seguida, Ramon começou a cantar uma oração. Chamou um dos sábios, e enquanto orava, retirava cada parte da armadura negra e púrpura dos antigos reis trenetenses. Nenhum dos que estavam ali presentes haviam presenciado uma Cerimônia da Abdicação. Quando ficou apenas com as calças de baixo, entrou na barca de bronze. Quando estavam prestes a partir, Juan entregou algo para Ramon.

- Uma moeda? – indagou Ramon, surpreso.

- É para o Barqueiro Cego do Outro Mundo.

- Jamais esquecerei de ti, Grande General.

- Outro tanto digo-te, meu senhor.

E, com essas palavras, de acordo com as histórias, acabou o reinado de Ramon Holtor, ou Ramon, o Condenado. Um reinado marcado pela obsessão de um rei ainda muito jovem para assumir um cargo tão importante. Um reinado onde a Milícia Trenetense tornou-se a principal instituição do reino inteiro.

A barca de bronze reluzia no extremo horizonte. O entardecer de inverno, vindoura luz, porém fria, refletia a beleza mortal da Barca dos Condenados. O povo a olhava, estático, sem proferir palavra alguma a não ser orações fúnebres. Algumas pessoas estavam aos prantos, outras pensativas. O certo é que a condenação de Ramon Holtor mexeu com o povo de uma forma que nem o próprio povo esperava. As mesmas pessoas que queriam linchar aquele homem pouco mais de uma hora atrás, naquele momento estavam profundamente tristes com a sua condenação.

Finalmente, aquele que queria quebrar a cerco formado por Mastins pôde entrar. Entrou correndo, um meio–elfo pelado, apenas com ceroulas.

- General Warman!!! General Warman!!! – gritava ele, desesperadamente.

Juan notou aquele homem, e o reconheceu.

- Arthur! O que aconteceu contigo? – perguntou o General. – Por que não estás vestindo tuas roupas de Harpia?

O meio – elfo prestou reverência, e em seguida, falou.

- Senhor, primeiro devo anunciar a Vossa Majestade e para ti uma notícia deveras vindoura!

- Fales, então!

- A Detentora do Nobre Sangue está viva! Foi liberta por Dean MacAberdeen quando este chegou a Golthorny. E ambos estão vindo para cá, para impedir que Vossa Majestade faça algo precipitado.

- Que dizes?! Erika está viva? Mas tu mesmo disseste que…

Um homem forte, cabeludo e barbudo na multidão intrometeu-se na conversa:

- General, não foi ele! Foi outro!

O Harpia olhou rapidamente para o aldeão.

- E como ele era? – indagou ele.

- Era um humano, de pele bronzeada, e cabelos de cor de caramelo.

- Foi ele!! Ele me atacou, tirou minhas roupas e me amarrou!!

A multidão começou a ficar tensa.

- Então, quer dizer que alguém te atacou e tirou tuas roupas, para se passar por membro da Milícia? – perguntou Juan.

O barbudo contorceu seu rosto vermelho, que contrastou com sua barba e cabelos claros. Era de profunda ira.

- Eles armaram contra o nosso rei, isso sim!! – berrou ele. – Eu sei!!! Os malditos mercadores de metais!!! Aproveitaram-se da situação, e o fizeram se matar!! Querem apoderar-se do trono, pois assim, vão extorquir mais!!! – pegou suas duas foices curtas nas mãos. – Eu não sei quanto a vocês, mas eu vou acabar com esses desgraçados!!!

As pessoas ali presentes compartilharam do sentimento do homem, e gritaram palavras de ordem, enquanto saíam das docas, com armas improvisadas em punho, à caça dos “mercadores de metais”. Estavam cegas de ódio. Sentiam-se injustiçadas, e sentiam que seu rei havia sido traído.

A história conta que, embora o povo não os tenha encontrado naquele dia, a Milícia acabou por descobrir que o nome do homem que havia dado a notícia falsa para Ramon, passando-se por Harpia, era Jack Keith, um mercenário experiente, e confirmou seu envolvimento com uma guilda de mercadores de metais, que haviam confederado esforços para destronar Ramon em um momento oportuno, em uma sociedade secreta chamada “Confraria do Aço”. A população acompanhou seu julgamento, feito pelo monarca interino, Juan Warman, em uma Corte da Traição. O mercenário foi executado por ostracismo no Reino dos Vermes, e o povo de Trenet ficou muito satisfeito – principalmente quando encontraram os membros da guilda de meradores, e os esfolaram vivos, em praça pública. O rei Juan mobilizou toda a Milícia para administrar a convocação de eleições diretas para que se decidisse quem seria o novo líder do Povo Unido de Trenet. O povo escolheria entre aquelas famílias nobres que tinham algum parentesco com um dos dois pioneiros (Trenet e Charleston) – o que incluía pelo menos onze nobres trenetenses, incluindo o próprio Juan Warman, Dean MacAberdeen e Erika. Embora pudesse ser votada, Erika não demonstrava interesse no trono. Trenet teria, de qualquer forma, pela segunda vez na História, um rei eleito pelo próprio povo.

Mas quem foi, é outra história.

Epílogo

Em uma edificação de Wharm, em um dia de violenta nevasca, dois indivíduos conversavam em um salão secreto, iluminado com velas ornamentadas e algumas pedras brilhando continuamente, uma conversa regada com vinho élfico da mais alta qualidade. Um deles era Arianthalas Smutts, um elfo, líder de um secto da Milícia chamado Detentores da Sabedoria, e talvez o mago mais poderoso e influente do reino. O outro era o rei de Trenet, Juan Warman.

- Então, parece que tudo ocorreu como intentavas. – disse Smutts. Sua voz era pausada, premeditada e melodiosa. – Previsível, tratando-se de humanos.

- Diga o que quiser, Smutts. Posso assegurar-te que os elfos são tão ingênuos quanto os humanos. – respondeu Juan, servindo mais uma taça de vinho.

- Tenho que admitir que tu és a exceção, e não a regra.

- Fazes bem em admiti-lo.

Ambos tomaram um gole simultâneo de vinho.

- Como fizeste para que o jovem Ramon não descobrisse teus planos? – indagou Arianthalas, quebrando o breve silêncio.

- Ora, elfo. É muito simples. Durante anos, fiz com que a confiança dele na Milícia fosse de tal forma completa, que nos últimos tempos, dependia completamente da Milícia para saber sobre fatos elementais, básicos, aos quais um monarca sábio não confiaria a uma única instituição. Sua completa ignorância sobre os verdadeiros fatos foi crucial para o desenvolvimento de meus planos.

- Juan, se não for pedir-te em demasiado, conta-me, como conseguiste enganar a todo o povo? Mesmo que sejam humanos, nem mesmo eles deveriam ser tão ignorantes assim. Na verdade, confessar-te – ei que, se estivesse alheio a tudo isso, teria acreditado em tua farsa. Tudo, desde o início, com o Paladino de Prata, foi incrivelmente bem orquestrado. Funcionou para ti, e para meus intentos também.

- Sim, tudo que disseste eu concordaria, se não estivesses errado em uma única parte.

- Qual?

- Ao considerardes a condenação de Albrecht como o início de tudo isso.

- Foi antes, então.

- Ora, isso iniciou logo no começo do reinado do jovem Ramon. Não fosse por minhas “advertências” a respeito da urgência de munir a Milícia de maior poderio, e da “necessidade” de criar novos impostos, isso nunca teria acontecido. Tornei-me seu conselheiro de confiança – em verdade, seu único conselheiro de fato. “Ensinei” a ele a tenacidade de um monarca virtuoso, e que o pulso de ferro deveria ser conquistado com sangue, lágrimas e suor. Eu devo dizer que Ramon Holtor, se minha tutela fosse diferente – muito mais rigorosa, mas deveras diferente –, seria um monarca excelente, semelhante a Christopher, que foi benevolente, sendo amado pelos seus súditos e respeitado pelos nobres.

- Então, teu plano começou há cinco anos atrás, no início do reinado de Ramon?

- Não, estás equivocado novamente. Iniciou vinte e nove anos atrás, quando soube que a família Warman era a detentora legítima do trono trenetense.

Os dois pesqueiros que conduziam a barca bronzeada haviam voltado à costa há dois dias e meio atrás. Apesar de não ter velas, nem remos, a embarcação movia-se inexoravelmente, levada pela Contra–Corrente de Bredenweard. Ramon contava apenas com um cantil com água potável, o suficiente para poder chegar à Região das Sirenes, que devia estar perigosamente próxima. Porém, nada mais disso lhe importava; quando ouvisse o canto da mulher – peixe, não resistiria. Dado seu atual estado de espírito, tudo o que desejava era a morte. E se tivesse que ser pela sirene, que fosse.

- Desgraçado que sou. – murmurava Ramon. – Leonar, perdoa os pecados de uma mente dementada, fatais, obstinados! Vós, que vedes ser do mesmo sangue aquele que matou e aquela que morreu! Malditas as minhas decisões! Irmã minha, com destino prematuro, morreste, partiste! Na juventude, por insensatez, não dela, mas minha!

Sua voz era fraca, angustiada. Naquela região estranha, mesmo no inverno, o sol queimava como o fogo, e Ramon sofria seus efeitos. Sua pele estava queimada em demasia, e contrastava com seus olhos, que confundiam-se com o céu. As condições atuais o faziam ter alucinações, mesmo quando acordado. Mas a lucidez de pensamentos, essa ele não queria perder.

Finalmente, um canto, longínquo e fraco, porém incrivelmente belo, podia ser ouvido. Ramon o esperou ansiosamente durante quase três dias.

- Sim! Sim! Que surja para mim a sorte mais bela, o dia trazendo derradeiro, e para mim, o ato supremo. Que venha, sim, que venha, e que eu não veja o dia nunca mais!

- Sabeis, sem dúvida, que, se houvesse utilidade em entoar gemidos e lamentos antes de morrer, ninguém se calaria nunca?

Era uma voz irônica, porém sobrenatural e ressonante. Vinha da proa, onde Ramon viu, estarrecido, um elfo negro, sentado tal qual estivesse em um confortável trono, vestido apenas com calças de tecido rústico. Sua pele, negra como a noite, refletia a luz do sol, assim como seus dentes sorridentes, escancarados em um sorriso desdenhoso.

- Uma alucinação. – murmurou Ramon, para si mesmo. – A sirene iniciou seu chamado.

- Não sou uma alucinação. – respondeu o elfo negro. – Tu sabes quem eu sou.

- Não, não…

- Sim. Eu sou aquele que arrebata os vivos; o que recolhe as almas dos mortos; aquele que pode tirar a vida ou permitir que se viva.

- Tu és Nosrredram? O senhor do Outro Mundo?

- Perspicaz. Uma lástima que ela não se aplique a todos.

- Que queres dizer com isso?

- Não vês? Foi traído. Apunhalado pelas costas, com um golpe baixo. Erika está viva.

- Mentira! Minha querida irmã suicidou-se!

- Como tens toda essa certeza? Acaso tu tens minhas atribuições?

- Recebi esta notícia de um Harpia…

- Ele não o era. Um falsário, que se fez passar por Harpia; isso, ele era.

- Não! Uma alucinação, produto de minha antiga paranóia, tu és! Vá embora! Suma!

O elfo aproximou-se de Ramon, e com uma força descomunal, e agarrou pela nuca e afundou seu rosto nas águas salgadas do Mar de Donnwulf.

- Diga, imbecil! Pareço-te como uma alucinação de tua cabeça maldita agora? Uma alucinação é capaz de fazer-te isto? – perguntava o elfo, enquanto mergulhava a cabeça de Ramon. Retirou – a, e o jogou de volta à barca.

- Se tivesses me afogado, estaria feliz agora. – disse Ramon, recuperando o fôlego.

- Tu não vais morrer, antes que ouças o que tenho para lhe contar. Se ainda quiserdes morrer depois disso, dar-te–ei este direito. – retrucou o elfo negro.

- Então dizes, que quero acabar logo com isso!

- Se não interromperes, será mais rápido.

- Pois bem.

- Ouve minhas palavras, Detentor do Nobre Sangue de Trenet: tu fostes oferecido em sacrifício para mim, por uma pessoa que não te é estranha. Aqueles em quem tu confiavas, traíram-te. Teu trono, arrebatado. Suspeitavas de traidores e usurpadores. Como fazias bem em suspeitares! Mas temias as pessoas erradas. Aquele que te enganou era-te caro, e deu-te algo para que fizesses a passagem para a eternidade.

- Que dizes! O traidor é…

- Juan Warman. – completou o elfo negro. – Ele tem convicção de que é o verdadeiro rei de Trenet. E neste momento, ele assumiu o trono. Admitas, Ramon. Tu fostes enganado fragorosamente.

- Ah! Traído por aquele que me apoiou em todas as minhas decisões! Agora vejo, que seu apoio nada mais era do que mera traição!

- Parece que só tarde vês que foste um péssimo rei, e que o apoio que recebias era para que não fosses diferente. O povo acabou por odiar-te. Existe traição maior do que apoiar a impiedade de seu próprio rei?

Ramon encarou o elfo negro.

- Tais são os fatos, e sobre eles há de se ponderar. – disse Ramon.

O elfo sorriu, um sorriso perverso.

- Então, ainda queres morrer? – perguntou ele.

- Isso pouco me importa. Eu quero apenas vingança.

- Posso dar-te isto.

- Podes? Irás ajudar-me em minha jornada? Pois, pelo que vejo, foi para isto que vieste.

- Sim, supõe bem. Eu mesmo quero arrebatar-te. Aquele que fez tratos comigo não ouvia a velha frase.

- “Cultuar o deus da morte é trabalho escusado”.

- Exato. Assim, se eu o fizer sozinho, nada deverei a ele.

- Mas dizes para mim, sem demora, como irás ajudar-me?

- Dê teu coração para a sirene.

- Queres que eu case realmente a sirene?

- Não. Quero que retires teu coração de teu peito, e o ofereças à sirene, em sacrifício a mim.

- Como posso fazer tal ato?!

- Eu o arrancarei de teu corpo, e tu não perecerás. Em verdade, tu renascerás, mas de outra forma.

- Eu ainda serei um homem?

- Receio que não. Serás aquele que habita na quase – vida, quase – morte, mas serás diferente, mesmo assim. Não serás um vulgar. Serás minha cria. Irás renascer.

- Então, faça!! Quero a minha vingança, a qualquer custo!

Nosrredram gargalhou. Com seu punho fechado, golpeou o peito de Ramon, e em uma fração de instante depois, retirou seu coração, pulsante. Para sua surpresa, Ramon não sentiu coisa alguma, e a sensação foi de um certo êxtase.

O coração vermelho e pulsante de Ramon enegreceu-se nas mãos de Nosrredram, que entregou a Ramon.

- Agora, faça o que deve ser feito. – disse ele.

Ramon assentiu, e pegou o coração em mãos. Uma tempestade vermelha, que iniciou uma forte corrente marítima, começou a levar a barca de bronze até um rochedo, onde uma silhueta humana feminina. Era a sirene, mas ela não cantava: suas mãos estavam juntas, como se esperassem receber alguma coisa. Ela era uma mulher deslumbrante, mas uma beleza que transparecia sua periculosidade. Causava tamanho impacto que um homem provavelmente não iria incomodar-se com o fato de que era metade peixe.

Os olhos de Ramon transpareciam todo o seu ódio, toda a sua raiva, por todos aqueles que lhe traíram. Estava determinado a fazer o que fosse preciso para efetuar sua vingança. Enquanto erguia seu coração enegrecido, em meio a raios, rajadas de vento, e um ar causticante, não – natural, Nosrredram lhe dizia palavras, como “vingue-se deles!”, ou “dê àqueles bastardos o que merecem!”. Começou sussurrando, mas seu tom foi aumentando, até que chegou aos gritos, o que aumentava o ódio de Ramon.

Finalmente, Ramon entregou seu coração à sirene. Ela olhou de forma luxuriosa para Ramon, e devorou o coração.

Ramon sentiu uma dor aguda em seu peito. Seu coração morreu, e isso começava a surtir efeito em seu corpo, mesmo que não fosse mais o mesmo. Em seguida, a sirene desapareceu nas águas do mar, e Nosrredram fechou o corte no peito de Ramon com sua mão, que estava quente como ferro em brasa. A marca que deixou, era a sua marca, o seu símbolo, cravejado para sempre no peito sem coração de Ramon. O ex – monarca desmaiou, ante a lancinante dor que sentia. A última coisa que viu antes de desmaiar foi o rosto do elfo negro, em um sorriso de satisfação.

Na pequena aldeia costeira de Rohrik, na província de Doneganshire, um homem, com uma grande marca de queimadura, com uma forma desenhada, estranha, foi resgatado do mar por pescadores. Ele era jovem, quase adolescente, e não lembrava de coisa alguma sobre si mesmo, nem seu próprio nome.

Seus únicos pertences eram suas calças, de fina lã de Aberdeenshire, uma peça caríssima, usada geralmente apenas pela alta nobreza, e um dobrão de duas caras, uma moeda única da nobreza trenetense.

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