Capítulo I - Os Anos Prósperos
Extraído dos Diários de Viagem de Abdel-Carim
1º dia da Primavera do ano 572
A viagem seguiu calma nos últimos dias e, para minha alegria, finalmente divisamos no horizonte as montanhas que cercam o Vale das Almas. As belezas naturais deste lugar são realmente de tirar o fôlego, como nos disseram em Hangsdon. Um tapete verdejante se estende pelas colinas. Véus de água despencam em pequenas cachoeiras que correm em direção aos pés das montanhas. Visão que cura a alma após tão longa viagem. Este é realmente o reino das águas. Nunca presenciei em minha vida tal quantidade de cursos d’água como em Longness, algo deveras impressionante para um habitante do deserto como eu.
A tarde está se aproximando de seu fim e Calreth sugere que acampemos aqui. A comitiva parece aliviada por não ter de atravessar as montanhas durante a noite. Estou ansioso para chegar ao Vale, mas anima-me a possibilidade de descansar com tão bela paisagem ao redor. A Estrada-Sul, pela qual viajamos, assim chamada por atravessar Hangsdon e levar os viajantes até os limites de Trenet, no sul do reino, é constantemente margeada por agradáveis campos de cheirosa e macia relva. Estes campos se espalham, planos, até onde alcança a vista. Aqui poderemos ter uma boa visão do vale e da estrada que serpenteia em meio às formações rochosas mais adiante, enquanto Calreth poderá me contar um pouco mais da história de sua bela cidade que se ergue em meio às montanhas.
Com certeza há algo de especial neste lugar, penso enquanto seguro em uma das mãos um pequenino cesto de juncos, arte proveniente de Laguna, garantiu-me o mercador encontrado dias atrás. O junco é produto do imenso lago situado no interior do vale. O material é firme e ao mesmo tempo de aparência extremamente delicada. Difícil imaginar que tão belos cestos sejam produzidos em uma cidade humana e não na Floresta da Alvorada, pelos habilidosos elfos.
Difícil é imaginar também como esta cidade, em pouco menos de 300 anos de existência e isolada neste distante vale progrediu tanto e hoje rivaliza em tamanho com a grandiosa Hangsdon. Calreth uma vez me disse que antes de se tornar uma cidade, este foi um entreposto militar, abandonado ao fim da Grande Guerra e novamente ocupado após o início da Guerra Étnica, para proteger a região dos ataques dos ogros do Ocidente. Os recursos abandonados pelos soldados ao final da guerra, antes utilizados para manutenção das tropas e máquinas, foram aplicados na construção de um vilarejo. Desde então a população nunca mais parou de crescer até se tornar a cidade de Laguna, que estou prestes a conhecer.
2º dia da Primavera do ano 572
Laguna é realmente impressionante. Assim que adentramos o vale observamos a imensidão do Lago Aslardur. Calreth explicou-me que este foi o nome do último general da cidade em seus dias como entreposto militar. Realmente, mais tarde pude ver uma estátua às margens do lago, com a figura imponente do velho guerreiro. O lago é formado por límpidas águas azuis, provenientes dos inúmeros cursos d’água que descem das montanhas e que pude observar ontem enquanto acampávamos. Barcos pesqueiros com lindas velas brancas transitam de um lado a outro do imenso espelho d’água. A pesca, a coleta de algas e a criação de crustáceos de água doce são muito importantes para a economia local. Ao longe, se observa a cidade à beira do lago.
Enquanto caminhávamos pela estrada, beirando o lago, em direção à cidade, pude observar também pequenas casas de madeira e pedra, abandonadas, mas ainda em bom estado de conservação. Calreth me explicou que esta era a cidade velha - as primeiras habitações do povo de Laguna. Nela moravam pescadores que mais tarde, com o surgimento dos grandes barcos pesqueiros se mudaram para a cidade nova. Mas a velha cidade, ou Vila dos Pescadores, como é chamada pelos locais, continuava como um excelente ponto turístico, exemplarmente bela em sua simplicidade.
A tranqüilidade da Vila dos Pescadores contrasta com o fervilhar da cidade nova. Assim que chegamos ao comércio da cidade ficou claro para mim que tanto os dias de acampamento militar, quanto os de vilarejo de pescadores, há muito já foram deixados por este povo. Nunca presenciei em toda Morgdan número tão grande de lojas e mercadorias. Seda de Loivty, aço de Stonegate, madeira de Avalon, tabaco de Trenet; tudo pode ser encontrado na Praça do Comércio, no centro da cidade nova de Laguna. Uma imensa área calçada com granito, onde mercadores de todos os cantos de Morgdan armam suas tendas para vender seus produtos.
Não nos detivemos muito tempo na Praça. Calreth nos conduziu a uma bela estalagem da cidade: o Solar Laguna. Antiga mansão de um rico comerciante que não deixou descendentes, hoje transformada em uma das melhores estalagens de Laguna, segundo meu amigo. Aqui poderemos descansar de nossa longa viagem. A culinária do local é excelente, como pude perceber no jantar. Um belo filé de garjeta, um peixe local e lagostas, servidos ensopados em um caldo de algas e camarões. Na sobremesa frutas secas vindas do bosque, ao norte do vale. O coche e os cavalos foram levados ao estábulo, que fica ao lado da “mansão”. A valiosa carga de ouro e pedras preciosas, presente do regente de Hangsdon a Fídeas, regente de Laguna, preferimos levar conosco para nossos aposentos, por segurança.
Amanhã o entregaremos a Fídeas e poderemos conhecer uma das maiores maravilhas de Laguna, a Vila dos Governantes. Nem mesmo Calreth já pôs os pés neste lugar. A Vila é fortemente protegida pela Guarda Oficial do Governo. Nela residem o Regente, sua família e funcionários de
confiança. É o centro de poder desta fabulosa cidade.
O tesouro que trazemos é um agradecimento de Hangsdon pelo término da Estrada-Oeste, financiado pelo governo de Laguna. Agora, finalmente Longness terá uma rota segura de escoamento de sua produção para o Ocidente. Dentro de dois dias seguiremos por esta nova estrada em direção a Loivty. Seremos uma das primeiras caravanas a cruzar esta estrada até a balsa que atravessa o Rio das Almas em seu ponto mais estreito, um feito de engenharia assombroso dos gnomos segundo ouvi falar.
3º dia da Primavera do ano 572
Esperamos alguns minutos na entrada da Vila dos Governantes - um imenso portal de pedras, decorado com entalhes em alto relevo de cenas de batalhas, provavelmente eventos ocorridos nos tempos de guerra. Os guardas da vila usam armaduras roxas e longas capas pretas. O elmo, também negro, é encimado por penachos roxos, retirados das aves locais e tingidos com o sumo de um fruto dos bosques, me disse Calreth.
Após termos nossa entrada autorizada, seguimos por um caminho calçado de paralelepípedos, a caminho do palacete principal, local de audiência do Regente. No trajeto passamos por inúmeras casas de madeira, todas muito luxuosas e semelhantes. Estas eram as residências dos funcionários do Governo. Jardins e pequenas praças dividiam espaço com as residências.
Encimando as muralhas de pedras da Vila erguiam-se guaritas, construídas com forte madeira de lei, onde guardas mantinham constante vigília do interior e exterior. Outras construções de madeira, não posso precisar quantas, abrigavam pelotões da guarda. Cada qual contando com alojamento, cozinha, sala de reuniões e aposentos particulares para os comandantes, me confiou um dos guardas, chamado Protos.
Protos me disse ainda que a residência do Regente e sua família se encontrava dentro do grande jardim ao centro da Vila, mas este local não teríamos o prazer de conhecer, sendo seu acesso restrito à própria família e os mais graduados funcionários e guardas. Lá também se encontrava a Sala do Tesouro de Laguna.
A sala de audiência era uma magnífica construção em madeira nobre, assim como as outras construções da Vila, mas bem maior. Um grande salão retangular, que conta com um museu, uma sala de armas, sala de espera e a sala de audiência propriamente dita, onde Fídeas nos recebeu e aceitou sorridente o presente que trazíamos para a cidade.
Deixei a Vila dos Governantes fascinado por suas delicadas construções de madeira, belos jardins, fontes majestosas com alto relevo em pedra, assim como no portão, espelhos d’água e pequenas pontes de madeira que os atravessavam, enfim, uma obra arquitetônica que poucas vezes vi igual. Com certeza um reflexo da grandiosidade desta cidade. Amanhã partiremos rumo a Loivty, em busca de uma nova encomenda, lá encontraremos um velho amigo de Calreth, um guerreiro elfo chamado Balder Darkfire. Enquanto penso nisso já começo a sentir saudades de Laguna. Enquanto isso, iremos aproveitar a noite em uma das tavernas da cidade, dizem que a vida noturna de Laguna é fervilhante como em nenhum outro lugar em Longness.
Capítulo II - O Começo do Fim
Extraído das Memórias de Calreth “Arco Ligeiro”
Primavera do ano 612
Há dois anos Thomas III realizou o grande sonho de nosso povo. Com a anexação da cidade de Koryr, evento que ficou conhecido como o Domínio do Leste, finalmente estava concretizada a Aliança do Oriente. A união dos antigos reinos de Longness, Trenet, Griffion, Fholther e cidades adjacentes em um único bloco. Quase uma década de trabalho árduo de nossos governantes finalmente nos renderiam paz e prosperidade econômica. Isso até a pérfida manobra dos Ocidentais.
Hoje possuímos o mais vasto reino de Morgdan. Com exceção do reino de Avalon, todas as terras a leste do Rio das Almas pertencem à Aliança do Oriente. Estabilizamos a economia e contamos com grandes reservas de ouro e pedras preciosas. Grandes rebanhos abastecem nossa população em constante crescimento. Nosso exército é numeroso e poderoso. Nós, os “Filhos dos Bárbaros”, como meu caro amigo Abdel-Carim batizou a etnia dos povos do Oriente, formamos a maior nação de toda Morgdan.
Essa grande prosperidade, ao que parece, vem ameaçando o mais rico reino do mundo - Loivty, certamente temeroso de perder a sua posição como maior potência de Morgdan. De forma traiçoeira Loivty aliou-se a Stonegate e bloqueou o envio de aço para o Oriente. A situação está cada vez mais tensa. A falta do produto já começa a se fazer sentir. Em Laguna o aço alcança preços cada vez mais altos na Praça do Comércio. Os conselheiros de Longness vêm chamando este evento de Bloqueio de Aço. As negociações com Loivty e Stonegate vêm se mostrando infrutíferas até o momento e a tensão se faz sentir cada vez mais em Laguna e Hangsdon…
Verão do ano 612
O que eu mais temia aconteceu. Esta manhã chegaram os primeiros comunicados oficiais de Hangsdon. Loivty e Stonegate não cederam. O Bloqueio de Aço não foi rompido. Thomas III declarou guerra aos Ocidentais. A cidade está em polvorosa, os exércitos das duas nações são poderosos. Mas ao mesmo tempo a população está exultante. Nosso exército também é forte e está preparado. Mostraremos aos Ocidentais que eles não devem brincar com a Aliança do Oriente.
A movimentação das tropas já começou. Inúmeras patrulhas estão se deslocando para oeste do Vale. Certamente Longness sofrerá os primeiros impactos da guerra. Nós somos a maior cidade a oeste do reino. Ao que parece, os dias de entreposto militar de Laguna retornarão…
Inverno do ano 612
Laguna virou um inferno. As tropas do oeste foram vencidas pelo poderoso exército loivtyano. A população, imbuída de orgulho nacionalista pegou em armas e juntou-se aos destacamentos restantes para proteger nossa cidade e nosso reino. Um cerco está se armando em torno de nossa cidade.
Isto me dói profundamente, mas terei que enviar Mirmidon para fora de Longness, afinal, ele é meu único filho. Contratei um grupo de mercenários que o auxiliarão em sua fuga. O enviarei para Korudrim, na Floresta da Alvorada, onde meu velho amigo Solkash poderá ajuda-lo. O momento de sua fuga terá de ser agora. Em breve o Inverno estará inclemente e as tropas loivtyanas cercarão Laguna, impossibilitando qualquer escapatória.
As notícias que chegam dizem que as batalhas se concentram no noroeste e sul de Trenet. A Aliança do Oriente resistirá bravamente a estes ataques. Tenho certeza de que sairemos vitoriosos. Se já não estivesse tão velho e cansado, eu mesmo pegaria em armas e ajudaria o nosso exército a expulsar os invasores de nossas terras…
Primavera do ano 613
Nunca um ano começou de forma tão terrível para mim. Há duas semanas os invasores ocupam a nossa cidade. Fídeas II foi decapitado na Praça do Comércio, em frente a toda a população, como forma de nos intimidar. Eles não o conseguirão. Dizem que toda a família de nosso Regente foi exterminada a sangue frio na Vila dos Governantes. Os loivtyanos dizem que a intervenção militar é temporária. Que fazem isso para deter a sanha tirânica de Thomas III, que ele roubou a liberdade dos Orientais e agora Loivty irá devolver esta liberdade ao nosso povo. Mentiras… Mais e mais tropas chegam pela Estrada-Oeste, dirigindo-se para Fholther e Griffion. Os tesouros de Laguna foram confiscados pelo exército de Loivty. Nossa comida é racionada e a população sofre de fome.
Sinto-me cada vez mais fraco, não sei se resistirei até o fim desta guerra. Só espero que Mirmidon esteja seguro em Korudrim. Pelo que sei, os invasores estão muito próximos de Golthorny. Não sei por quanto tempo a aliança entre trenetenses e longnêses, resistirá aos ataques…
Verão do ano 613
As revoltas populares são constantes. Os loivtyanos não esperavam por tanta determinação. Com certeza não conheciam os longnêses. Laguna voltou a ser um entreposto militar. Meus conterrâneos mais jovens estão sendo utilizados como mão-de-obra escrava. Obrigados a transportar todo o equipamento do exército de Loivty.
Infelizmente o estoicismo não é uma qualidade de todos. Massacrados pelo regime imposto pelos invasores, alguns lagunenses traíram nosso reino. Em troca de privilégios, passam informações estratégicas sobre a região para os loivtyanos. Nada me entristece mais que esses cães traidores…
Outono do ano 613
A situação nunca foi tão desesperadora. Notícias chegam do leste. Os exércitos de Loivty e Stonegate navegaram pelo Oceano do Norte, movimentando uma grande quantidade de tropas rumo a Griffion. Eu mesmo não acreditei a primeira vez que ouvi. Nunca uma viagem por mar tão longa fora realizada em Morgdan. Os invasores aportaram nas proximidades de Bloodmor. A capital de Griffion foi tomada. Os griffionenses foram obrigados a se render aos invasores.
Rumores falam sobre uma possível movimentação do exército longnês para libertar Laguna. Não sei se posso confiar nestes rumores, o clima de insegurança é grande na cidade. Os loivtyanos matam qualquer um que possa transmitir informações ao exército longnês. O clima de tensão é desesperador, meu velho amigo Amhtar foi o primeiro a sucumbir a uma loucura aterradora. Outrora um respeitável cidadão de Laguna, hoje não passa de um amontoado de trapos nas celas da antiga prisão da cidade. Afundado em seus próprios pensamentos e incapaz de tocar em qualquer pessoa sem ser acometido de uma violenta crise de pânico. Rezo para que os rumores estejam certos, nada encheria mais o meu coração de alegria do que sair deste inferno…
Inverno do ano 613
Os rumores estavam certos. Aproveitando-se do inverno rigoroso e do maior conhecimento do terreno, as tropas de Longness cercaram Laguna e tomaram a cidade de volta. Esta com certeza foi a maior derrota de Loivty nesta guerra. Nunca pensei que ficaria feliz com a morte de um ser humano, mas vibrei, juntamente com toda a população, com a execução dos traidores de Longness pelas mãos de nosso exército. A esperança de vitória mais uma vez contagiou a população.
Apesar disso a situação é crítica. Os invasores chegaram a Golthorny. Trenet se rendeu. Os covardes de Fholther, temendo o avanço das tropas também entregaram suas armas. Longness está sozinho na guerra.
Em Laguna as coisas não vão nada bem. Com o fim dos estoques da Primavera, a população está faminta. Toda a comida disponível vai primeiro para as tropas, depois para a população. Os prisioneiros loivtyanos morrem de inanição nas cadeias, que já exalam um cheiro pútrido. A situação continua tensa com a busca de novos traidores entre a população. Muitos querem fugir, mas não há para onde. Todo o Oriente está devastado. Qualquer oriental pego no Ocidente seria executado como espião, se não fosse capturado antes pelas próprias tropas de Longness. O risco de um ataque iminente e a sensação de impotência leva muitos à loucura. O inverno, estranhamente rigoroso este ano mata a população às dúzias…
Verão do ano 614
Nos últimos meses a cidade já trocou de mão duas vezes. Nunca presenciei um cerco tão longo. O ponto é estratégico para a movimentação de tropas. Dizem que se Laguna cair, em pouco tempo Hangsdon também cairá. O inverno parece não querer ir embora, neste verão muitos foram os dias nublados. Os deuses parecem não querer assistir a carnificina que se desenrola logo abaixo deles.
A população está cansada e faminta. Nossos homens são trespassados por espadas e destroçados por máquinas de guerra. Nossas mulheres servem de diversão para as tropas inimigas e, algumas vezes, também para o nosso exército. Nem mesmo as crianças são poupadas. Garotos que mal deixaram as fraldas são jogados de encontro ao inimigo segurando uma espada que nem mesmo podem manejar.
Em alguns momentos tenho vontade de dar fim a todo este sofrimento. Dar cabo de minha própria vida…
Outono do ano 614
Laguna finalmente caiu. Os loivtyanos comemoram como loucos ao redor da população, que parece não acreditar no que acontece à sua volta. Em poucos dias os loivtyanos chegarão a Hangsdon. Muitos que chegam do interior de Longness falam que pilhas de corpos se amontoam nas margens das estradas. Enquanto ouvia um desses relatos uma grande tempestade desabou. Acho que fiquei louco. Quando a água da chuva tocou meus lábios, senti o gosto salgado de lágrimas. Os ventos eram como uivos ao meu ouvido. Parecia o fim do mundo. Enquanto isso observava a pequenina Helgar beber água no Lago Aslardur…
Inverno do ano 614
A guerra acabou. Hangsdon foi invadida e Thomas III teve sua cabeça pendurada em praça pública pelo que pude ouvir. Éden, irmão de Figho I, foi nomeado o novo rei de Longness. Aos poucos as tropas loivtyanas começaram a deixar Laguna. Mais uma vez o sentimento nacionalista e o orgulho sobrepujaram a dor e iniciamos a reconstrução de nossa cidade.
Garsan foi eleito burgomestre, a partir de então deveria controlar o comércio e a administração dos bens de Laguna, ele era o líder da Guilda do Comércio, portanto, o mais apto a reerguer a cidade. Nunca mais teremos um Regente, como antigamente, não após assistirmos a brutal morte de Fídeas II.
Os soldados remanescentes formaram a nova guarda da cidade, mas após relatos de que os fantasmas dos loivtyanos que morreram na cadeia continuavam a assombrar o local, um novo quartel teve de ser construído, próximo à residência do burgomestre.
Os campos abrigam agora uma nova construção. O manicômio Amhtar. Homenagem ao velho cidadão de nossa cidade. Os inúmeros doentes mentais que surgiram em nossa cidade e continuam a aparecer dia após dia hão de ser tratados neste novo prédio de Laguna. Símbolo de nossa vontade de nos reerguermos.
A antiga Vila do Governo foi totalmente abandonada. Especialmente após um grupo de aventureiros ter entrado lá em busca de tesouros abandonados, no mês passado. A noite inteira se ouvia os gritos dos infelizes, nunca mais foram vistos. Dizem que os antigos guardas do lugar ainda guardam a Vila. Rumores tolos. Como o que diz que o velho senhor Dhamalin, antigo proprietário do Solar Laguna, retornou ao seu antigo lar diretamente do Inferno. Bom, o fato é que o local nunca mais foi reconstruído.
Estes rumores não esmorecem a alma de nossa população. Com ou sem os mortos nós não abandonaremos nosso lar. Reconstruiremos Laguna e ela será grande novamente. As dores são muitas, mas podemos suporta-las. Fizemos isso todos os dias nos últimos dois anos. Podemos suportar muito mais. Como a morte da menina Helgar hoje de manhã. Há meses ela foi acometida de uma súbita depressão…
Capítulo III - A Nova Etapa de Laguna
Laguna, ano 675
Caro Solkash, escrevo esta carta para lhe informar que alcancei Laguna, cidade natal de meu pai e meu avô. Estou bem e espero que também esteja. Cheguei à cidade pela Estrada-Oeste, chegando ao Vale das Almas rapidamente. Em poucos dias de viagem já podia avistar o Portão da Fúria - um grande portão de pedra que marca a entrada da cidade. Os locais dizem que foi construído pelos loivtyanos para lembrar o povo de sua derrota. Falam também que passar por debaixo deste portão é um péssimo agouro.
Foi difícil, mas encontrei a velha residência de vovô. Encheu-me de alegria encontrar nela antigos papéis escritos pelo meu próprio avô e aquele seu amigo, o qual você menciona constantemente, Abdel-Carim. Tratam-se de fragmentos de um Diário de Viagem do bardo e memórias escritas de próprio punho pelo meu avô, relatos da Guerra entre os Reinos.
Laguna é realmente uma cidade intrigante. A terra aqui é árida. Nada se planta, como em todo resto de Longness. Toda a comida daqui vem de fora e alcança altos preços. Mas isto não é o mais impressionante. Laguna é realmente uma “cidade de mortos-vivos”. Finalmente posso entender porque a chamam em todo o continente de “Cidade dos Mortos”.
Realmente a malha que separa o mundo dos vivos e dos mortos parece não existir em Laguna. As pessoas entram em contato constantemente com espíritos dos que já se foram. Eu mesmo, no pouco tempo que estive na cidade, já tive dois encontros com estas criaturas. Foram experiências terríveis. As almas atormentadas mencionavam constantemente o nome de uma pessoa, algo como o local onde seu corpo estava enterrado. Não consegui dormir durante uma semana.
Os habitantes daqui parecem conviver normalmente com isto. Muitos tentavam me interrogar, na ânsia de descobrir o que os espíritos queriam dizer. Acreditam que isto possa ser útil de alguma forma.
Certa noite vi vultos que rondavam uma Vila abandonada e murada na parte velha da cidade. Dizem que são soldados zumbis. Que estão condenados a guardar seus tesouros eternamente. Não pretendo me aventurar em local tão perigoso para descobrir a verdade.
Inúmeros são os necromantes na cidade. Geralmente ocupam posições sociais privilegiadas, pelo fácil contato que têm com os mortos. Ao que tudo indica, muitos tesouros, artefatos e relíquias estão espalhados por toda a região e apenas os mortos podem revelar os locais destes tesouros perdidos. Tudo em troca de pequenos favores, é claro. Mas o que são pequenos favores em uma região tão inóspita quanto essa? Conheci um necromante chamado Arnerral. Ele especializou-se em usar seus poderes para escravizar almas e faze-las trabalhar para ele. Uma figura detestável, certamente.
Fantasmas e zumbis aparentemente não são os únicos morto-vivos de Laguna. Um castelo construído há pouco tempo nas montanhas que cercam a cidade, abriga um conde que, muitos dizem, suga o sangue das pessoas e nunca é visto à luz do sol. Ao que tudo indica o homem é um vampiro, mas ainda não pude confirmar este rumor.
O grande Lago Aslardur continua com suas águas límpidas como mencionado nos escritos de Abdel, mas poucos são os que se atrevem a navegar nestas águas. O porto está abandonado e velhos navios estão encalhados em suas margens. O motivo disso são os barcos-fantasmas. Acredite, caro Solkash, barcos tripulados por almas que ainda acreditam estarem vivas surgem em meio às brumas do lago certas noites. Uma visão apavorante, com certeza. Falam que quem bebe as águas do lago é acometido por uma profunda depressão, dizem que foi uma benção de Hellenah. Os magos da região utilizam muito estas águas.
É difícil acreditar que em meio a tantos perigos a população se mantenha firme em seu lar, mas após ler os textos de vovô eu entendo o porquê. Para onde iria este povo? E mais, este é o lar deles, nem mesmo todo um exército foi capaz de expulsa-los daqui. É admirável ver tamanha bravura e amor pela terra nestas pessoas. Analisando friamente a situação é possível ver que eles extraem muitas vantagens de Laguna. O contato com os mortos lhes revelam muitos segredos, impossíveis de serem descobertos fora daqui. Bairros inteiros estão abandonados nesta cidade e uma mera visita a estes bairros infestados de almas ancestrais, pode revelar o conhecimento de uma vida inteira. Este é um povo sombrio e atormentado, com certeza, mas também é um dos povos mais sábios que já conheci.
Muitos dos mortos são difíceis de diferenciar de alguém vivo. Por isso é muito bom ter cuidado ao lidar com as pessoas neste lugar. Aliás, às vezes é muito melhor ter cuidado com os vivos. Guildas de criminosos e assassinos, e até um culto a Hellenah, aterrorizam as noites da cidade. Infelizmente são eles que garantem a existência dela, contrabandeando produtos para o mercado negro. Dizem até que alguns trabalham para o próprio burgomestre.
Apesar destes relatos, não quero que tema por mim Solkash. Mesmo com a população sombria e os mortos rondando em cada esquina, Laguna é um bom lugar para se viver, caso você seja esperto. Em breve estarei de volta.
Sinceramente
Calreth II, filho de Mirmidon
Capítulo IV - A Descoberta
Ano 760
Solkash nunca chegou a receber a minha carta. Na noite em que a escrevi fui assassinado em um culto a Hellenah. Realmente a cidade dos mortos é um ótimo lugar para pessoas espertas viverem, eu achei que era esperto o suficiente. Quase um século se passou desde minha morte e até hoje busco vingança, não descansarei enquanto os malditos sacerdotes não forem punidos. Enquanto isso, estarei preso a esta terra.
Mas finalmente descobri o que mantém esta cidade em pé, todo este reino maldito em pé. Esperança. A esperança de ajudar aqueles que se foram a apaziguar suas almas, a esperança de espiar as suas próprias culpas e erros, a esperança de obter vingança contra as injustiças que sofreram, a simples esperança de partir para outra vida…Todos aqui, vivos ou mortos, buscam redenção.
Reuni toda a minha força para juntar anotações e formar este livro, espero que caia nas mãos certas, para que eu possa finalmente alcançar a minha redenção…
Calreth II, filho de Mirmidon





