Kahei Borar, azul como aço

“São de batalhas, lutas e sangue que nasce a paz.”

Nasci em uma grande, porém decadente, cidade de elfos azuis no plano de Melmahat. Meu pai, Ghamed ou Golias, se preferirem, e minha mãe, Sha’ad, celebraram o nascimento da criança que o curandeiro Perí havia previsto. Este seria o guerreiro do novo mundo aguardado, mas - como sabem - nada vem sem um preço: ele era aguardado por uma grande tragédia, um sacrifício. Minha mãe mal sabia que o sacrifício seria ela, e teve de dar sua alma imortal para o anjo Merceu, que disse que se ela não o fizesse eu provavelmente morreria. Minha mãe acabou morrendo de velhice 52 anos humanos depois, meu pai sabia que ela havia sido buscada pelo anjo, e que havia ido para um lugar bem melhor. Ele me treinou desde pequeno nas artes da guerra e da magia, e me tornei um guerreiro da floresta, como ele.

Minha raça estava novamente sendo exprimida pelos nossos antecedentes, os elfos brancos (nós chamamos os elfos comuns de brancos) e os orcs. Um último grupo de decadentes (como éramos chamados) foi recrutado - nosso grupo era chamado de Desesperados: eram fêmeas, crianças e velhos. Eu tinha apenas 500 anos de idade (o equivalente a 10 anos humanos) quando fui a batalha. Minha legião era comandada pelo comandante e pai meu, Golias, Azul Prússio, veterano de guerra. Rumamos para o golfo negro, em direção às altas montanhas, onde viviam a principal tribo goblinóide e órquica. A batalha foi terrível e sangrenta, minha legião, composta de 5.000 soldados foi reduzida a meros 1.000 - sofremos uma terrível derrota. Com nossas forças esgotadas, meu pai decidiu fazer uma emboscada à Torre Pontiaguda, lar do grande orc. A tática era separar 800 elfos para atacar pela frente em emboscada e esmagar as principais forças frontais, forçando a retaguarda a assumir os postos da frente, enquanto os outros 200 atacariam pelos flancos e adentrariam o castelo em seu momento mais frágil. Meu pai me designou para comandar os 200 soldados - a estratégia foi um enorme sucesso, nosso exército continuava intacto, exceto por uma pequeníssima baixa de 12 homens, mas esta vitória excelente não foi comemorada, pois meu pai, o comandante, o último comandante, foi morto.

Alguns anos após este incidente os elfos brancos começaram uma campanha de luta contra as sub-raças, consideradas inferiores. Nossa cidade novamente reconstruída sofreu outro surto, dessa vez os inimigos eram mais inteligentes e dominavam mais a magia do que os orcs bárbaros e nômades que tentaram nos conquistar. Eu estava com 600 anos. Desta vez estávamos desinformados sobre o avanço de tropas inimigas e ocupados com a reconstrução da cidade. Não tivemos chances - sobraram apenas 150 de nossa raça e fomos exumados de nossa terra mais uma vez. Então com um pacto de mudar para um outro plano, eu, Perí e remanescentes usamos todas as nossas forças para abrir um portal entre as dimensões. Foi a primeira vez que pus meus pés em Morgdan, ó terra maravilhosa - esta era pacifica, mas logo vieram as batalhas. Eu estava cansado destas e resolvi retirar um longo sono, dormi por 500 anos. Quando acordei havia envelhecido apenas 100 e, onde era um belo oásis, agora era um deserto, o Deserto Áureo. Quando estava cansado, desnutrido, desidratado e sofrendo muitas alucinações, ouvi uma voz me chamando - na verdade duas. Uma era doce e calma num tom de frieza. Percebi que era uma mulher humana, que logo apareceu ao horizonte, usando uma armadura de diamantes e, possuía olhos frios. Ela me dizia que me ofereceria conforto, uma bela esposa (ela), poder, riqueza, glória, e tentações materiais tão ousadas e gloriosas que nem mesmo eu sabia que existiam e que pudessem ser desfrutadas. A outra era uma voz firme, prudente e vistosa, como a de um dragão - ele me dizia que se eu seguisse minha intuição iria receber respeito, um prato de sopa, um bom gole de água gelada e um legado de paz e justiça que eu tanto precisava, e a maior riqueza de todas: a gratidão de muitos a quem eu ajudaria.

Segui minha intuição. Meu caminho foi árduo, difícil - muitas vezes tentei mudar de rumo e seguir aquela mulher, oh tentações! Entretanto, não sei como, o meu caminho, repleto de perigos, sempre me guiava para o lado contrário. Era uma força dentro de mim que me falava que não eram reais os confortos apresentados pelo calor do deserto: as tentações que me ofereciam eram apenas coisas que um dia desapareceriam. Ao longe avistei uma imponente torre dourada, a maior que eu havia visto. Corri até ela com meus farrapos, ossos quebrados e toda a carne que ainda tinha sobre meu corpo.

Encontrei muitos guerreiros calorosos e bondosos. 8 cavaleiros vieram até mim. Me alimentaram - rapidamente voltei às minhas forças e juízo. Me ofereceram a oportunidade de tornar o mundo deles um mundo melhor - aceitei. Fui submetido a um ritual de iniciação e uma festa, me deram roupas, uma cama espaçosa e confortável, uma armadura e equipamentos, além da sua espirituosidade e alegria. Me apresentei como Kahei Rouse, o Prússio, atualmente um dos últimos de minha raça em Morgdan. As últimas notícias que tenho de minha terra natal são de meu grande amigo Perí, que havia voltado à minha terra enquanto eu dormia. A mensagem era a seguinte:

“A paz foi restaurada após muito tempo. Na nossa dimensão o tempo é mais lento, mas aqui já se foram muitos anos élficos, e havíamos formado um último bando de fugitivos - 15 no total. Mas os elfos brancos desistiram de nos procurar com os boatos que o povo espalhava sobre nossa extinção aqui em Nassal, muito tempo depois, restauramos nossa prosperidade e sabedoria - os elfos brancos haviam abandonado suas idéias racistas e nos deixaram em paz. Atualmente nossa cidade está melhor do que nunca e a nossa raça está em seu apogeu.

Saudações: Perí.”

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