Abdel-Carim, o Bardo Calado

Poucas são as pessoas que conhecem o poder do deserto. Seu aspecto árido prenuncia a morte para aqueles que não enxergam além da superfície. Para estas pessoas o tempo não corre neste ambiente; nada se move, o deserto é apenas desolação. Mas sob as areias inertes e o calor inclemente se esconde um dos maiores segredos do deserto. O poder de transformar vidas.

A criança que viria a se chamar Abdel-Carim nasceu em uma das muitas caravanas que tentaram cruzar as areias sem fim do Deserto Áureo. Nasceu com o deserto já em suas veias. Como tantas outras, a caravana onde seguiam seus pais estava repleta de aventureiros sedentos de riqueza e glória. Como tantas outras, esta caravana sucumbiu aos inúmeros perigos que habitam o Deserto Áureo. Um ataque de orcs da temida tribo dos Shardik pôs fim ao sonho dos aventureiros e à vida dos pais de Abdel. A saga desta criança quase se encerrou neste dia. Mas, o Deserto Áureo também abriga seus heróis e o garoto acabou sendo salvo pelos beduínos Twes, que rechaçaram o ataque orc. Tomando a criança órfã sob seus cuidados, os beduínos lhe deram um nome e um propósito. Abdel-Carim cresceu para se tornar um bardo. Ele foi criado para cantar as belezas da cultura do Povo do Deserto por toda Morgdan.

Abdel tornou-se um jovem impetuoso. Seu talento com a flauta e o canto cresciam rapidamente. Apenas lhe faltava inspiração. Isso ele foi buscar se tornando um aventureiro. O bardo enfrentou inúmeros perigos por todo o continente ao lado dos mais grandiosos heróis. Ele cantava as maravilhas de sua terra para platéias atentas e belos poemas eram entoados pelo artista relatando os feitos de poderosos heróis que lutaram ao seu lado. Mas as areias do deserto mais uma vez resolveram mostrar o seu poder e novamente transformaram a vida do jovem beduíno. Contratado por um grupo de aventureiros em busca das famosas areias de ouro do deserto, Abdel serviu de guia para uma caravana similar àquela onde um dia nasceu.

Abdel-Carim nem desconfiava que aquela aventura resultaria em um evento de conseqüências tão grandes para o Deserto Áureo. Ele serviu de guia para nada mais nada menos que a comitiva de Balder Darkfire, o mítico fundador da Cidadela. Abdel acabou se tornando um dos principais responsáveis pelo surgimento desta atípica cidade. A experiência do beduíno garantiu a sobrevivência da caravana durante muitas semanas no deserto. Já exauridos pelo clima e pelas nefastas criaturas das areias, os heróis foram guiados por Abdel até o oásis da Cidadela. Lá, finalmente convencido pelo seu guia de que as dunas de ouro não passavam de lendas, Balder enxergou naquele oásis uma civilização grandiosa. Pela primeira vez o sonho da Cidadela ocupou a mente do elfo. E ajudado por Abdel-Carim ele ergueu o seu sonho tornando-o concreto.

Muito dinheiro e fama foram conquistados por Abdel na Cidadela. Ele era feliz em seu oásis. Até o momento em que novamente as areias resolveram mudar a sua vida. Ao assistir um grupo de beduínos sendo impedido de se abrigar de uma tempestade de areia por não ter dinheiro para entrar na cidade, Abdel se perguntou o que era aquilo que ele ajudara a erguer. A Cidadela profanava o deserto tanto ou mais que a Horda Negra e seus nefastos mortos-vivos.

Iniciou-se uma grandiosa (e a única até hoje) batalha política pelo controle da Cidadela. O poder de manipulação do bardo era grande. Rapidamente uniu sob sua égide um grande grupo de revolucionários convencidos pelos seus ideais libertários. Um movimento em favor das idéias de Abdel-Carim se formou rapidamente e a instabilidade política na cidade era grande. Mas os aliados de Balder eram numerosos e sua influência, construída durante anos e anos (com a ajuda do próprio Abdel), era forte e consolidada. Em pouco tempo uma sublevação levou o grupo do bardo da batalha política à resistência armada. Uma guerra civil foi instaurada na Cidadela. As coisas não correram bem para os revoltosos e, derrotados, muitos foram mortos ou condenados. Para o líder restou o exílio, sua morte o transformaria em um mártir, ele deveria ser reduzido a uma sombra do que representava. Humilhado Abdel-Carim foi rechaçado pelo povo e expulso para a solidão do deserto. Por anos o ex-bardo vagou pelas areias sem fim em busca de redenção pelo mal que trouxe ao deserto. Ele tinha a esperança de que mais uma vez as areias mudassem a sua vida.

O tempo correu com o vento que move as dunas. Há poucos anos, quase dois séculos após o exílio de Abdel-Carim, um homem misterioso reivindicando o seu nome surgiu em meio às tempestades de areia. Muitos o tomaram como apenas um louco em busca de atenção, mas os antigos elfos da Cidadela reconhecem o polêmico bardo neste novo guerreiro: sua face - apesar de não trazer mais o brilho dos dias como bardo, mas a dureza das rochas - suas maneiras antigas e suas idéias libertárias, atestam, segundo muitos, a verdade de sua afirmação. Além disso, o guerreiro-bardo carrega consigo Naay, a flauta mágica, que segundo os antigos, Abdel-Carim levaria para o túmulo e preferiria destruí-la a vê-la em outras mãos.

Abdel, no entanto, retornou, em muitos aspectos, transformado. Os sons de Naay não entoam mais as belezas de seu povo, apenas estranhas magias desconhecidas, e a única coisa que lembra música neste homem é o rodopio hipnotizante e o zunido de sua cimitarra enquanto os inimigos caem. Seu nome, lembrado com rancor tanto pelo povo da Cidadela quanto pelos beduínos Twees - segundo suas visões, ambos foram traídos por Abdel - não foi completamente apagado pela história. No entanto, uma nova alcunha foi criada para definir o exótico guerreiro: o Bardo Calado.

Logicamente, muita apreensão e medo foram trazidos à Cidadela pela simples existência do Bardo Calado, mas o fato de que nenhuma atitude agressiva contra a cidade foi tomada por ele até o momento impedem qualquer caçada ao guerreiro-bardo. Mesmo assim, a propaganda negativa promovida pelos governantes da Cidadela contra o Bardo Calado é grande. O fato de ele ter surgido poucos anos após o início dos ataques do Dragão Negro à cidade atraem grandes suspeitas.

A mais famosa explicação sobre o fato de ele ter sobrevivido por tanto tempo é de que o bardo exilado teria sido tornado imortal pelo seu antigo senhor e este senhor seria o Dragão Negro, encarnação do antigo mago Ankar Udry, que retorna agora com seu acólito para retomar sua fortaleza. Outra versão diz que o Bardo Calado é, na verdade, mais um dos mortos-vivos da Horda Negra, o mais poderoso e inteligente deles, destinado a liderá-los em um grande massacre contra os vivos no deserto. Estas duas versões são combatidas por aqueles que alegam que qualquer criatura tão antiga seria detentora de grande poder, e o Bardo, com tamanho poder em mãos já teria derrubado o regime que governa a Cidadela há muito tempo. De fato, o guerreiro-bardo não carrega tantos poderes quanto se esperaria de um homem com mais de 200 anos.

Em contrapartida, outras teorias defendem que Abdel-Carim teria ressucitado para se vingar das atrocidades do povo da Cidadela, ou de que teria sido abençoado pelo Iluminado, que o trouxe de volta ao deserto como o único guardião de todos os seus segredos, e por isso o bardo se mantém calado e recluso. Dizem ainda que suas magias lhe foram ensinadas por gênios e muitos podem jurar que já o avistaram em ação contra criaturas malignas, atuando ao lado dos próprios Cavaleiros Dourados. Apenas conjecturas. A única certeza é que agora a alma do antigo bardo é tão deserta quanto as areias onde nasceu. As areias que mudaram para sempre a sua vida.

Ficha de Personagem (D&D)

Abdel-Carim (Bardo Calado), Humano, Bardo 5º Nível, Guerreiro 3º nível

Humanóide (médio)
Tendência: Caótico/Neutro
Dados de Vida: 5d6+10 e 3d10+6 (60 PV)
Iniciativa: +0 (Des)
Deslocamento: 9m
CA: 10
Ataques: Corpo a corpo: Cimitarra (+3)
Dano:
Face/Alcance: 1,5m por 15m/1,5m
Qualidades Especiais:
Testes de Resistência: Fort. +4, Ref +5, Vont +5
Habilidades: For 12, Des 10, Cons 15, Int 17, Sab 18, Car 12.
Perícias: Conhecimento (Deserto) +14, Senso de Direção +15, Sobrevivência (Deserto) +9, Diplomacia +11, Ouvir +15, Procurar +6
Talentos: Magia Silenciosa, Magias em Combate, Rastrear, Reflexos Rápidos, Lutar as Cegas, Usar Arma Exótica (Cimitarra)
Nível de Desafio: 8
Equipameto: Cimitarra +3, Naay (flauta; as magias desferidas dela possuem Potencializar Magias), corda 20m, lanterna, 3 frascos de óleo, 3 cantis cheios de água
Magias divinas: 3 de nível 0 (Brilho, Globos de Luz, Sons Fantasmagóricos), 3 de 1º nível (Recuo Acelerado, Servo Invisível, Armadura Arcana) e 1 de 2º nível (Curar Ferimentos Leves e Despedaçar)

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