A Revolucao da Lã em Trenet

É sábado. Mal o dia começa a cidade já se agita, numa movimentação incomum. Ao longo da rua principal - a Stockgate - improvisam-se tablados, toscas barracas de madeira. Sobre elas, os artesãos vão arrumando peças e mais peças de lã. Seu trabalho começara muitas horas antes. Ainda era noite escura quando toda a família juntara o tecido feito durante meses, arrumara-o sobre as mulas ou carretas e dirigira-se à cidade (os artesãos em geral vivem no campo).

Ao raiar do sol da manhã, as cornetas cerimoniais do templo de Thinos ecoam pela cidade inteira: é o sinal para o início dos trabalhos. Em pouco tempo a rua enche-se de gente. Os comerciantes e seus empregados passeiam por entre as barracas, examinam as mercadorias, escolhem, discutem o preço, compram. Em pouco tempo, a Stockgate torna-se pequena demais para abarcar tanto movimento. O comércio ganha as outras ruas, praças, tavernas, toda a cidade transforma-se num grande mercado, onde transita todo o tipo de seres e raças, de todos os lugares imagináveis deste continente enorme, que chamamos Morgdan. Porque é sábado, no dia da Feira da Lã. Edições menores acontecem toda a semana, nesta cidade. A Feira de Lifford Forest é conhecida em toda Morgdan, por sua grande quantidade e sua inquestionável qualidade: a cidade é parada obrigatória para mercadores de tecidos de respeito no Continente (e, algumas vezes, fora dele também).

Tal cena repete-se a cada ano na cidade de Lifford Forest, no norte de Trenet. E não é só nesta cidade: outras feiras similares (porém não com a mesma importância) ocorrem em Fraburgh, Fort Willesheim, Starlingen e Stormwick, cidades vizinhas de Lifford Forest.

O que acontece é que Trenet sempre teve no comércio sua principal atividade. Porém, com o aumento dos impostos, esta atividade em específico (ou seja, ser um mercador apenas), decaiu bastante. Como conseqüência, as antigas feiras de artesãos - com impostos menos severos - renasceram com grande força. Em especial, as feiras de lã, produto trenetense por excelência. Tanto é que nem mesmo a coroa abre mão dela: um decreto do antigo rei Cheryl estabeleceu que todo o defunto trenetense deve ser sepultado com mortalha de lã.

Hoje produzido de forma artesanal - como nos primórdios -, o comércio de lã em Trenet já teve seus tempos de grande importância. Há poucos anos, no reinado de Christopher Holtor, os artesãos eram apenas aqueles que criavam e tosqueavam as ovelhas, cardavam a lã bruta e penteavam os fios. Os fardos pertenciam ao comerciante, que era o intermediário entre os produtores e os compradores. Para ele convergia a produção total dos toscos teares e rocas. Era ele quem mandava a lã para os curtumes - hoje escassos, muitas vezes, integrados na própria família artesã -, transportava e vendia. Os camponeses, incultos, nunca poderiam entender como funcionavam os intrincados processos de comercialização de seu produto.

Do comércio de lã dependia, lógico, a sua fabricação. Os antigos grandes mercadores, com suas rotas organizadas, embarcavam os tecidos em seus navios, organizavam grandes caravanas, e vendiam para outros reinos. Eles eram os donos da matéria-prima, dirigindo a produção, vendendo o produto, controlando então as diversas fases da produção. Por isso, eram chamados de "comerciantes manufatureiros", ou os "fabricantes de lã". Mesmo com toda a família ocupada, os artesãos tecelões, verdadeiros fabricantes, mal conseguiam o suficiente para a subsistência. Era uma situação desconfortável, e isso já estava dando claros sinais da decadência deste sistema de comércio, quando várias famílias deixaram este ofício para tornarem-se agricultoras. A ascensão de Ramon Holtor deu uma espécie de "golpe de misericórdia" no sistema mercante de lã, quando decretou vários e pesados impostos à atividade. Como resultado, poucos comerciantes mantiveram este comércio, o que acabou por beneficiar, de certa forma, as famílias que viram-se forçadas a abandonar a atividade: muitos dos simpatizantes de Holtor são oriundos do norte produtor de lã. Indiretamente, o soberano corrupto ajudou a reavivar o antigo espírito norte-trenetense da produção de lã.

Atualmente, a principal forma de vender a produção de lã trenetense é por meio das já citadas feiras. Como a atividade agropecuária sofre menos com os impostos, e o artesanato é quase deixado de lado nas contas do reino, as feiras tornaram-se atividades muito rentáveis. Sem precisar mover seus produtos, as famílias deixam de pagar muitos dos impostos que os comerciantes e mercadores, antigos intermediários, pagavam. Na verdade, Holtor faz questão de que assim seja: afinal, isto forçou os antigos compradores da requisitada lã trenetense a deslocarem-se até o reino - e assim, procurou concentrar o peso dos impostos extorsivos nos pedágios, impostos de importação, exportação e outros encargos para as caravanas e demais compradores estrangeiros.

Mesmo com os tributos, os mercadores estrangeiros vêem grandes oportunidades nas feiras trenetenses. As roupas de lã são muito usadas em Morgdan, como em Stonegate e Tatsu. A lã das feiras é muito mais barata que antigamente, quando os mercantes trenetenses colocavam percentagens em cima do preço de produção. O modo artesanal barateou deveras o preço da lã. Afinal, é tão simples! As ovelhas crescem e reproduzem-se por si mesmas, a tosquia é toda manual, e a lã é vendida bruta na maioria das vezes. Enriquecem os artesãos, enriquece o rei, e os mercadores estrangeiros, apesar dos pedágios quase ultrajantes, pagam menos que outrora pela famosa lã trenetense.

Porém, os antigos grandes mercadores de lã não fazem parte dos que estão satisfeitos. Grande parte da fama da lã de Trenet deve-se ao seu trabalho de divulgação, quando conseguiram convencer quase todo o continente que a lã do norte trenetense era a de melhor qualidade que podia-se encontrar. Eles, juntamente com outros mercadores que foram obrigados a largar os negócios, encabeçam um levante contra o monarca trenetense, que já conta com quase meio milhar de revoltosos. A pequena nobreza - menos favorecida que a grande nobreza - é simpática ao movimento, mas ainda não deixou clara sua posição - poucos o fizeram, e destes, menos ainda estão hoje ilesos de assassinatos ou de tentativas. As cidades e províncias dependentes do comércio são os principais focos de descontentes e revoltosos - uma boa parte delas localiza-se na faixa litorânea e nas zonas fronteiriças do reino. Estes rebeldes são a principal causa do crescente nervosismo de Holtor, que enxerga nesta revolta uma conspiração longnêsa para desestruturar suas bases de poder.

O que o monarca provavelmente não cogita é que os maiores golpes geralmente vêm de onde menos se espera.

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