Um épico de fantasia medieval
Por Sir Leon Garden
Prólogo - Gênese
Há muito, muito tempo atrás, o cosmo, entediado, decidiu criar o bondoso Leonar, o deus da criação. Deu-lhe, então, a missão de construir e povoar um novo mundo. A esse mundo, Leonar deu o nome de Morgdan. Em pouco tempo, Morgdan estava repleto de plantas, animais, ar, água, terra… Mas Leonar decidiu, então, dar a vida à primeira criatura inteligente de Morgdan, os elfos - criaturas belas, esbeltas, muito longevas e com uma aptidão para as artes, magia e um contato muito forte com a natureza.
Porém, como criaturas inteligentes e com livre arbítrio que são, alguns elfos renegaram Leonar e criaram um novo deus para adorar, um deus maligno que viria para destruir tudo o que Leonar construiu e criar um mundo de trevas. Esse novo deus chamava-se Nosrredram.
Sem perda de tempo, Nosrredram criou os orcs, criaturas malignas por natureza que só viam destruição e morte. Uma Grande Guerra começou sobre o solo morgdanês. O bem contra o mal, a luz contra as trevas, os elfos contra os orcs.
Leonar resolveu, então, criar mais uma poderosa raça para competir na Guerra, os anões. Esses fortes, longevos, peritos no manuseio de metal e minério, ótimos aliados. Os elfos, porém, não gostaram muito da ajuda destes seres, pois eram rústicos e mal-educados, defeitos mortais para os da raça élfica. Mesmo assim, lutaram bravamente do mesmo lado, contra o mal.
O troco de Nosrredram veio na forma de diversas raças de tendência maligna, como goblins, hobgoblins, kobolds, trogloditas, gigantes, ogros, etc. Neste momento, a Guerra parecia estar sendo vencida pelas trevas. Morte e destruição era a única visão que se tinha no mundo de Morgdan. Animais eram usados – e mortos – em batalhas, árvores eram usadas para construir máquinas de guerra cada vez maiores e mortais.
Muito angustiado com a Guerra, Leonar decidiu procurar raças em outros mundos que o ajudassem a vencer a batalha. Encontrou um mundo em constante guerra. Neste mundo, existia apenas uma raça inteligente, os humanos. Esses pareciam perfeitos para Morgdan. Leonar, então, trouxe, em grande quantidade, os que pareceram mais aptos a aceitar seu modo de vida. Entre eles, encontrou um deus pequeno, um deus samurai muito honrado. Convidou-o a trazer seu povo para Morgdan e deu-lhe de presente um pacato vale nas Montanhas de Gelo. O deus Tatsu-kin, conhecido como o samurai de gelo, aceitou o convite sem nenhuma restrição, entrando inclusive no combate, ao lado de Leonar. Seus samurais, com toda sua bravura, foram importantes aliados.
Nosrredram decidiu, então, utilizar a mesma tática. Descobriu que existiam diversos humanos que poderiam ajudá-lo. Encontrou um povo bárbaro e destruidor, que adorava um deus pequeno e bruto, conhecido como Mog. Em troca de sua ajuda na Guerra, Mog recebeu toda a Península Vermelha para seu povo.
Mas Nosrredram continuou sua procura e trouxe incontáveis criaturas malignas, monstros que povoam os nossos pesadelos, criaturas que são movidas pela morte e pela destruição. Leonar também buscou outras criaturas e encontrou alguns ajudantes, como os gnomos, com sua inteligência, e os halflings, com sua agilidade.
A Grande Guerra durava vários séculos. Uma grande parcela do povo não suportava a destruição e morte causada por esta. Na tristeza da Guerra, então, nasceu Hellenah, a dama da noite, deusa da amargura e depressão. Porém, um grupo de bardos, trovadores e boêmios, alheios a Guerra, deram vida a Julian, deus da alegria, irmão caçula de Hellenah. Julian acolhia mais adeptos que sua irmã, tornando-se esse o motivo para o ódio entre os deuses irmãos. Ódio esse que dura até os dias atuais.
O desejo para o fim da Guerra era de tamanha grandeza que criou um novo deus, o mais poderoso de todos. Kolthar, o deus da justiça, nasceu para pôr um fim definitivo à Grande Guerra dos Deuses. Este deus dragão de nove cabeças, trouxe para Morgdan um grande número dessas incríveis criaturas reptilianas. Dragões de todas as cores e formatos povoaram os covis morgdanêses. Muito justo, Kolthar nomeou um dragão para cada lado da Guerra. Para o lado do bem, o Grande Dragão Dourado, e para o lado do mal, o Dragão de Diamante, ambos dragões ancestrais com incríveis poderes.
O chamado “acordo de paz” consistiu, principalmente, em dividir as raças pelo continente, onde cada qual teria seu espaço. Deu o dom de dar a vida a qualquer ser-vivo à Leonar e o dom de tirá-la ao deus Nosrredram. Metade do dia seria iluminada e a outra metade em trevas. Um deus foi nomeado exclusivamente para esse controle. Thinos, o recém-nascido deus do tempo, decidiu dar doze horas para a luz e doze horas para as trevas.
Com a paz que sempre desejou e com novas tarefas para cumprir, Leonar decidiu abdicar de parte de seu poder e dá-lo a sua nova filha. Jhanna, a meiga mãe natureza, ficaria com o controle das plantas, dos animais e dos fenômenos naturais.
Inúmeros deuses nasciam a cada dia em Morgdan. Assim, Kolthar decidiu fechar um grupo com os dez maiores deuses, conhecidos como o primeiro panteão. Para completar o grupo, Kolthar convidou um deus bastante excêntrico. Etros, o deus do destino, sorte e azar, mesmo com a desconfiança dos outros deuses recebeu o status tão desejado de “grande deus”. Porém, teria seu poder restrito a jogos de azar e pequenas alterações no destino das pessoas. Etros aceitou essas restrições com um estranho silêncio.
Certamente, Nosrredram, Mog e Hellenah foram os maiores prejudicados com o acordo de paz, pois perderam muito território. Há uma antiga lenda que diz que eles planejam romper o código, mas para isso precisam despistar Kolthar, que com as suas nove cabeças, é capaz de vigiar todos os deuses a todo tempo.
Muito tempo se passou desde o fim da Grande Guerra. Setecentos e sessenta anos, segundo clérigos de Thinos, o deus do tempo. Outras guerras menores já assolaram nosso mundo. Os deuses têm atuado com muita freqüência e interagido em nossas vidas. Porém, até agora, eles não têm interferido de maneira extrema como na época da Grande Guerra… Até agora.
Capítulo I - O conde de Mondragon
Todos sabemos que em Morgdan é comum encontrarmos pessoas dispostas a realizar uma tarefa por dinheiro, fama, reconhecimento, por seu deus, ou por qualquer outro motivo. Essas pessoas são conhecidas como aventureiros. Existem diversos tipos de aventureiros e diversos são os motivos que os levam a essa vida. Mas, sem dúvida, o ouro é o maior deles.
Naquela tarde em Golthorny, capital do reino de Trenet, na taverna Grifo Verde, aventureiros se reuniam em busca de novas aventuras. Tínhamos uma densa concentração de novatos que ainda não haviam participado de nenhum grande feito. Essa taverna tinha a fama de ser o berço de grupos bastante conhecidos, fama que se mantém até hoje.
A cerveja era o combustível para toda aquela bagunça e confraternização. Porém, em algum momento, entrou um homem com vestimentas bem simples, descalço e com rosto sujo de terra, um plebeu. Ele olhou para todas as mesas e analisou cada um daqueles homens e mulheres. Fitava-os como se analisasse o passado e futuro de cada um.
Um deles, sentado à mesa, bebendo vinho e vestindo roupas estranhas, porém elegantes, o chamou a atenção. Não parecia ser humano. Sua aparência e beleza facial era semelhante a dos elfos, principalmente por suas orelhas pontiagudas. Mas a presença de fios de barba na face denunciava que havia um pouco de humano naquela criatura. Uma aberração, do amor entre elfos e humanos nascem criaturas conhecidas como meio-elfos. Aproximou-se, pediu licença e sentou-se à sua mesa.
– Saudações, meu nome é Luke Siston. – disse o plebeu.
– Prazer, Aramil Sundergold, desejas alguma coisa? – indagou o meio-elfo
– Deixe-me contar-lhe uma história. – respirou profundamente – Na guerra contra o reino de Longness, o barão de Mondragon foi morto em batalha. Seu filho, então, assumiu o posto e ganhou a promoção de seu pai, tornando-se conde. Com a promoção, o jovem conde ganhou o direito sobre grande parte das terras ao oeste de Trenet, além do direito de exploração das chamadas Minas de Mondragon. – suspirou levemente – Porém, como não possuía empregados suficientes para trabalhar nas minas, decretou que toda família em seu território deveria fornecer um trabalhador como forma de pagamento pelas terras.
– Desculpa-me senhor, mas onde eu entro nesta história?
– Minha mulher faleceu no parto de minha única filha, Julia. Passei anos vendendo parte de minha colheita na feira mensal de Golthorny para tentar sustentá-la. Porém, como eu era responsável pela colheita da família, os guardas do conde de Mondragon levaram Julia com eles. – assumiu uma feição de tristeza profunda – Isso já faz doze anos. Em cada dia que se passava desde que levaram-na, só pensava em reunir ouro suficiente para contratar um grupo de aventureiros mercenários para tirá-la das garras do conde. – fitou o meio-elfo com bravura – É isso que eu desejo de você. Você me pareceu um excelente aventureiro, eu sempre fui bom em analisar pessoas. Quero que você reúna o grupo de aventureiros que desejar e então salve a minha filha. Vocês terão a recompensa em ouro!
– Onde se localizam as minas?
– Sei apenas que ficam ao norte, próximo ao Rio Noosh.
– Terás tua filha de volta, Luke. Aguarda nesta taverna que em alguns dias a traremos para tu.
Aramil Sundergold, um meio-elfo, filho de uma mãe elfa com um pai humano. Foi rejeitado pela comunidade élfica e criado entre o povo de seu pai. Descobriu, durante sua puberdade, que podia realizar feitos incríveis, como acender luzes e emitir raios de gelo. Adulto, descobriu que era um feiticeiro, podia manejar a arte da mágica, porém não precisava enfiar-se em estudos, como os magos. A magia brotava de seu corpo e não de livros. Para conhecer melhor o mundo e aprimorar sua magia, resolveu tornar-se um aventureiro.
Apesar de especialista em magia, ele era apenas um novato. Precisava de alguém que pudesse realizar combate corporal. Analisando os aventureiros da taverna, reparou que grande parte daqueles homens empunhava sua espada e usava armadura como guerreiros, mas um deles, uma aberração como ele, chamou sua atenção. Era um meio-orc, uma mistura grotesca entre orcs e humanos. Com sua pele esverdeada, dois metros de altura, pés descalços, músculos avantajados, caninos inferiores protuberantes, feições grotescas e grande clava, parecia ter nascido para o combate.
– Olá, estou à procura de aventureiros fortes para uma missão. – disse Aramil, aproximando-se do meio-orc – Gostarias de unir-te ao meu grupo?
– Hohg é forte. – respondeu o meio-orc, com uma mistura de sons e grunhidos, referindo-se a si próprio – Hohg vai ajudar. Mas Hohg gosta de ouro.
– Teremos ouro como recompensa, caro amigo. Pelo que me parece, tu te chamas Hohg. Meu nome é Aramil Sundergold.
– Hohg acha que Aramil é legal. Hohg acha que Aramil fala engraçado. – disse o meio-orc emitindo uma estranha risada.
Fruto de violência sexual entre um orc e uma mulher humana, durante um ataque a uma vila próxima à Península Vermelha, Hohg nasceu com uma força tão grande que sua mãe não resistiu ao parto. Foi criado, então, por uma tribo de bárbaros humanos e, quando chegou à puberdade, decidiu viajar pelo mundo em busca de ouro e reconhecimento. Em momentos de extrema dificuldade, como todos os bárbaros, é capaz de entrar em uma fúria assassina capaz de destruir qualquer criatura inimiga que esteja em seu caminho.
– Precisamos de mais alguém para nosso grupo. Ajuda-me a encontrar, Hohg. – indagou Aramil.
– Hohg ajuda.
Três aventureiros naquela taverna chamaram a atenção de Aramil e Hohg. Um deles era um anão que vestia uma bela e bem tratada armadura, com um símbolo de um sol nascente no peito, provavelmente um clérigo de Leonar. O outro era um humano vestindo uma armadura de couro, com cabelos desgrenhados e um sorriso estranho na face, provavelmente um ladrão. O terceiro era também humano, porém usando trapos no lugar de roupas. Amarrava faixas nos antebraços e nas canelas. Sua pele era queimada de sol e sua expressão facial indicava serenidade. Aramil já havia ouvido falar sobre os monges de Gavhion, treinados na arte do combate corporal desarmado. Eram tão potentes com os punhos e pernas quanto um guerreiro com uma espada.
Atraído pela curiosidade de conhecer a chamada arte marcial, Aramil o sugeriu, apontando seu indicador para o homem que vestia trapos. Hohg confirmou acenando com a sua protuberante cabeça. Aproximaram-se para realizar o convite:
– Saudações, monge. Me chamo Aramil Sundergold. Este é Hohg. Estamos à procura de um aventureiro para uma importante missão. Precisamos retirar a filha de um pobre senhor, das garras de um conde corrupto. Teremos pagamento em ouro. Gostaríamos que fosses conosco.
– Saudações. Eu sou Christofer, filho de Gavhion. Sinto-me muito honrado em participar de tal empreitada.
– Muito bom, bem vindo ao grupo. – Aramil agradeceu apertando sua mão.
– Hohg gosta do grupo novo. – grunhiu o meio-orc, abraçando os demais integrantes do grupo com seus fortes braços.
– Amanhã de manhã partiremos. Precisamos dormir agora, pois teremos uma longa viagem.
Christofer nunca conheceu seu pai ou sua mãe. Foi encontrado ainda bebê e criado em Gavhion, uma ilha do arquipélago de Donnwulf. Mostrou-se um excelente aluno nas artes marciais e espirituais ensinadas nesse monastério. Para conhecer melhor o mundo, aperfeiçoar sua técnica e conhecer sua verdadeira história, Christofer decidiu correr o mundo em busca de aventuras.
Despediram-se e cada um foi para o seu quarto na estalagem da taverna. Na manhã seguinte, Aramil contou-lhes os detalhes da missão enquanto tomavam sua refeição matinal, à base de leite e pão seco. Quando todos estavam com suas mochilas nas costas e suprimentos comprados, partiram para o norte, rumo ao rio Noosh. Teriam seis dias de viagem pela frente.
Sabe-se que Trenet é um reino muito corrupto. Os governantes preocupam-se mais em enriquecer seus cofres que com a segurança do povo. Por isso, assaltantes são muito comuns em uma viagem pelas estradas desse reino.
Três dias já haviam se passado desde que Aramil, Hohg e Christofer haviam começado sua viagem. As três noites que passaram na estrada foram tranqüilas. Enquanto dois dormiam, um ficava acordado e mantinha a fogueira acesa. Comiam sempre de manhã e caminhavam, sem parar, até o anoitecer. Como todo aventureiro, estavam acostumados com essa rotina.
Na quarta noite, Hohg, que estava de plantão, viu um movimento em uma das árvores ao seu redor. Levantou-se e foi averiguar. De súbito, uma flecha cortou o ar e acertou suas costas. Quando olhou para ver quem o havia acertado, uma nova flecha cravou em seu peito, desta vez vinda da árvore à sua frente. Eram saqueadores.
Aramil e Christofer então acordaram e avistaram um dos saqueadores vindo em sua direção. Sem ele perceber, Aramil recitou algumas palavras mágicas, fez alguns gestos estranhos e, de uma bela explosão de luzes, um pequeno míssil de energia mágica desprendeu de suas mãos, cortou todo o ar e acertou o alvo à sua frente. Christofer completou o trabalho, com um chute voador no peito do inimigo. O saqueador caiu fatalmente ferido no chão, sem saber ao menos quem o acertou.
Hohg, muito ferido, viu seus olhos encherem-se de ódio e fúria. Sacudiu a árvore à sua frente com uma força fenomenal, maior inclusive que a sua força normal. O saqueador, então, caiu da árvore, recebendo um triste fim na enorme clava do enfurecido bárbaro. Uma outra flecha correu o ar, porém errou o meio-orc, acertando o chão ao seu lado. Hohg então correu enfurecidamente na direção da árvore de onde havia saído a última flecha e jogou todo o peso de seu enorme corpo sobre ela - o suficiente para derrubar o outro saqueador, que também não resistiu e teve seu fim com o peso incrível da clava de Hohg.
Ainda enfurecido, o bárbaro avistou um outro saqueador que tentava fugir. Em poucos instantes, o alcançou facilmente e preparou-se para o golpe final. Aramil, então, o impediu e ofereceu a redenção ao saqueador. Sem muito pensar, vendo a sombra de Nosrredram, o deus da morte, ao seu lado, ele jogou-se de joelhos ao chão implorando misericórdia. Hohg, muito cansado após sua fúria assassina, sentou-se no chão e comentou:
– Saqueador vai ser nosso escravo, então.
– Exatamente. – concordou Aramil, o feiticeiro.
Aramil pegou uma corda em sua mochila, amarrou as mãos e os pés do saqueador, deixando espaço apenas para que fosse possível andar. Amarrou a corda do saqueador na cintura de Hohg.
– Se tu tentares qualquer coisa contra nosso grupo, terás que se ver com o nosso amigo meio-orc.
– Hohg mata você! – acrescentou o bárbaro, após uma horrível gargalhada, acompanhada do sorriso de Aramil.
Christofer assistiu a tudo com um olhar de curiosidade. Ele nunca havia visto uma fera tão brutal e assassina, mas ao mesmo tempo estranhamente simpática. Também nunca havia visto uma magia de tendências tão destruidoras como a que Aramil havia lançado. Para o monge, magias serviam apenas para curar os doentes. Outra novidade para Christofer era como seus novos amigos lidaram com o saqueador sobrevivente. Deixaram-no vivo, porém tomaram-no como escravo, humilhavam-no e se divertiam com isso. Era realmente uma forma muita estranha de misericórdia.
Tornaram a dormir para descansar do combate contra os saqueadores. Os corpos dos mortos foram jogados no rio para que Jhanna, a mãe natureza, fosse capaz de salvar suas almas. Ao acordarem, comeram suas rações de viagem e continuaram seu caminho que duraria mais dois dias.
Nenhum outro imprevisto ocorreu nesse tempo. No horizonte já era possível ver o Rio Noosh refletindo a bela paisagem dos três sóis de Morgdan, um grande e luminoso, outro pequeno e laranja e um central em forma de uma espiral luminosa. As Minas de Mondragon deveriam estar próximas. O grupo parou próximo ao rio. Enquanto Hohg e Aramil bebiam um pouco de água para matar suas sedes, Christofer olhava ao redor em busca de uma entrada para a mina.
Foi quando avistou, ao longe, dois guardas com grandes escudos de aço no braço esquerdo e manuseando espadas longas na mão direita, vestindo bruneas – armaduras com placas sobrepostas, semelhantes a escamas. Apoiado nas costas de suas armaduras, havia um estandarte amarelo com um símbolo de um dragão, circular e estampado em preto, como se a criatura estivesse mordendo a própria calda. O monge chamou os demais companheiros:
– O estandarte e o símbolo devem indicar a ligação com algum nobre, ou estou enganado?
– Não estás enganado, meu amigo, este é provavelmente o símbolo de Mondragon. – respondeu o meio-elfo – E esses guardas devem guardar suas minas. Julia, a menina que procuramos, deve estar dentro delas.
– Hohg mata os dois! – acrescentou o meio-orc.
– Não Hohg, vamos armar uma estratégia melhor. – interrompeu Aramil, olhando para as árvores ao redor.
Amarraram, então, o saqueador em uma das árvores. Hohg escalou, com certa dificuldade, uma outra a alguns metros dos guardas. Christofer e Aramil esconderam-se atrás de outras mais distantes.
Hohg sacudiu sua árvore para chamar a atenção dos guardas. Um deles percebeu o movimento e foi averiguar. Quando o guarda aproximou-se, o bárbaro saltou com seu enorme corpo sobre ele, derrubando-o. Um único golpe com a clava foi suficiente para acabar com sua vida.
O outro guarda percebeu o ataque e, gritando, correu na direção de Hohg. Um míssil de energia mágica, disparado por Aramil, então, acertou seu peito, interrompendo sua corrida. Christofer correu na direção dele e desferiu um belo soco, fazendo com que o guarda caísse morto no chão.
Porém, atraídos pelo barulho da batalha, um grupo de mais quatro guardas correu em direção aos aventureiros. Dois atacaram Hohg com suas espadas, ferindo-o gravemente. Outro atacou Christofer, que se esquivou do ataque. O quarto cravou sua espada no ventre de Aramil. Com algumas trocas de golpes, Hohg venceu um dos guardas. Christofer, com uma seqüência de chutes, também derrubou aquele que lhe atacara. Restavam apenas dois.
Aramil recuou um pouco, fez os gestos e disse as palavras mágicas e o míssil de energia acertou o guarda que o havia ferido, mas este continuou em pé. Christofer correu em auxílio a Aramil, porém seu ataque foi defendido pelo escudo do resistente guarda.
Hohg encontrava dificuldade para derrotar o seu inimigo. Estava próximo da morte e o guarda ia desferir o golpe fatal. Então, uma lâmina surgiu no pescoço do seu oponente, atravessando-o e banhando Hohg com sangue. Aquele que acabara de salvá-lo era o saqueador que eles haviam poupado.
– Estamos quites. – disse.
– ‘Brigado. – agradeceu o meio-orc ferido.
Mas Aramil e Christofer estavam com dificuldades para enfrentar o outro guarda. Hohg, correndo em auxílio aos demais amigos, com sua grande clava acertou o último inimigo, que caiu fatalmente ferido sobre o chão. Todos os aventureiros também estavam muito feridos, mas haviam vencido aquela terrível batalha.
Nos corpos dos guardas mortos, encontraram quatro pequenos vidros com um líquido azulado. Aramil reuniu os frascos e identificou todos como mágicos, provavelmente poções de cura. Hohg, então, sem pensar muito bebeu um deles. Sentiu um alívio intenso quando seus ferimentos começaram a cicatrizar. Como ainda não estava totalmente curado, pegou outro frasco e bebeu novamente, ficando sem nenhum ferimento. Os outros dois frascos foram bebidos por Aramil e Christofer, que também ficaram totalmente curados.
– Caro saqueador, estás livre agora, podes seguir o teu caminho. – Aramil disse.
– Não! Irei junto com vocês. Desejo muito parte do ouro que vocês tanto falam, caso cumpram sua missão. – respondeu – Além disso, já estamos tão próximos de encontrar a menina. É só procurá-la nessas minas.
– Tudo certo. Podes vir conosco. Estávamos mesmo precisando de um ladrão em nosso grupo. – respondeu o meio-elfo. Aguardaram o anoitecer e entraram na mina, que era escavada na terra, com o teto e as paredes escoradas por fortes pilastras de madeira. Uma tocha iluminava todo o túnel que se formava desde a entrada até onde seus olhos podiam ver.
Caminharam por alguns metros quando Aramil parou e começou a olhar atentamente para uma região na parede esquerda do túnel. Os outros membros do grupo o observaram curiosos, mas não interromperam. O saqueador, então, foi ao auxílio do feiticeiro. Depois de algumas tateadas na parede da mina, descobriram que uma parte daquela parede podia ser movida. Com ajuda de Hohg, empurraram-na, abrindo uma passagem secreta totalmente escura.
Christofer correu e foi buscar a tocha na entrada da mina. Hohg, que herdou de seu pai orc a capacidade de enxergar na escuridão total tão bem como de dia, adentrou na passagem, seguido de Aramil e do saqueador. Chistofer, com a tocha, entrou alguns instantes depois.
O pequeno túnel terminava em uma área mais aberta, semelhante a um aposento, porém com imperfeições. Hohg foi capaz de ver, no final deste, uma grande pilha de prata e algumas jóias preciosas. Sem muito pensar, acelerou o passo em busca do tesouro. Então, um ser humanóide levantou do chão com uma picareta na mão e emitiu um forte gemido de agonia. Atrás dele, outros quatro também levantaram, empunhando picaretas. Eles não estavam vivos, mas também não estavam mortos. Eram zumbis, corpos em estado de decomposição que não encontraram o sossego da morte e vagam com o único objetivo de matar e comer os recém-falecidos.
Como sua cota diária de magia estava comprometida, Aramil sacou sua besta – uma arma de madeira que lança virotes semelhantes a flechas, com um simples apertar de gatilho – e recuou para que as criaturas não o alcançassem. O saqueador sacou seu arco e atirou uma flecha em um dos zumbis, que continuou em pé como se nada tivesse acontecido. Christofer correu em direção a outro dos zumbis e desferiu um potente soco no rosto decomposto da criatura. Hohg lutava com ainda outro zumbi, que também resistia como ninguém aos golpes de sua enorme clava.
Os zumbis não possuíam uma grande destreza, era comum errarem os golpes que tentavam desferir em Christofer e Hohg, mas aqueles que acertavam causavam uma intensa dor. Hohg e Christofer, depois de muito golpear, conseguiram derrubar três dos cinco zumbis. O saqueador derrubou outro zumbi, que caiu ao chão repleto de flechas cravejadas em seu corpo decomposto. O zumbi que Aramil estava atacando, embora estivesse com alguns virotes de besta cravados em seu corpo, continuava a andar. Christofer deu-lhe, então, um belo chute no rosto. Hohg, uma pancada com sua clava. E o saqueador acertou mais uma flecha, derrubando o último zumbi.
Com o combate terminado, Aramil sugeriu que Hohg, o mais forte, carregasse consigo o tesouro encontrado neste aposento para depois, quando saíssem das minas, dividirem-o. Todos concordaram. Retornaram, então, pela passagem secreta, para o túnel principal da mina e continuaram caminhando em busca de algum vestígio da menina chamada Julia.
Prosseguiram pelo corredor escavado na terra, sustentado por fortes pilastras de madeira, até um ponto onde outrora havia mineração, um pouco mais largo que o corredor, porém vazio. Continuaram, então, o caminho, virando levemente à esquerda. Após alguns minutos de caminhada, o corredor dividiu-se em dois, no formato de um “Y”. Um rápido consenso sugeriu que Hohg e Aramil iriam pela esquerda e que Christofer e o saqueador iriam pela direita.
O bárbaro e o feiticeiro caminharam alguns metros através da passagem da esquerda até que conseguiram avistar uma área mais larga e mais comprida que o corredor. Aproximando-se, perceberam que haviam três pessoas trabalhando na mineração e outros dois vestidos como os guardas de fora das minas, com seus estandartes, bruneas, espadas e escudos. Hohg empunhou sua clava e a brandiu fortemente sobre um dos guardas, pegando-o de surpresa. Aramil afastou-se um pouco e disparou um virote com sua besta no outro guarda. Após uma troca de golpes, o guarda que o meio-orc enfrentava caiu morto ao chão, não resistindo às pancadas da pesada clava de Hohg. O outro corria em direção de Aramil, que o castigava com seus virotes de besta, uma dor semelhante à de uma flecha cravada por um arco. Porém, antes que o alcançasse, um dos trabalhadores, um escravo, brandiu sua pesada picareta contra o guarda, que não resistiu e caiu, fatalmente ferido, ao chão.
– Muito obrigado. – agradeceu o meio-elfo feiticeiro – Vocês estão livres agora.
– Os outros podem ir, – respondeu aquele que o ajudara contra o guarda – mas eu acompanharei vocês e livrarei meu povo desta injusta escravidão.
– Hohg gosta de ajuda. Mas Hohg quer matar os guardas também. – acrescentou o meio-orc.
Como este aposento não tinha nenhuma continuação através de corredores, Aramil, Hohg e o escravo retornaram por onde vieram. Encontraram novamente a entrada em “Y” e seguiram desta vez pelo caminho da direita. Continuaram pelo corredor por alguns minutos até que avistaram um grupo de escravos correndo em sua direção. Quando os escravos avistaram um igual acompanhando os heróis, ficaram despreocupados e continuaram seu caminho para fora das minas. Um pouco mais à frente, os aventureiros encontraram Christofer e o saqueador. Eles contaram que venceram alguns guardas e libertaram alguns escravos e que podiam continuar andando em frente, ao invés de entrar na passagem da direita numa divisão que podia ser avistada à frente, pois aquele caminho já havia sido explorado. Nenhum dos escravos havia ouvido falar de uma menina chamada Julia.
Continuaram, então, o caminho pelos corredores das minas, ignorando a entrada para direita que encontraram. Caminharam por vários minutos, fizeram algumas curvas leves para direita até que encontraram novamente uma divisão do corredor em “Y”. Desta vez, decidiram que todos iriam pela passagem da esquerda juntos.
Seguindo pelo corredor da esquerda, Aramil, Hohg, Christofer, o saqueador e o escravo caminharam por alguns poucos minutos até que avistaram uma nova área de mineração, a maior de todas. Era possível identificar oito escravos trabalhando nas minas, cinco guardas trajando o mesmo uniforme que os anteriores e um com uma armadura semelhante, porém com detalhes em dourado, que indicavam um posto mais elevado. O escravo o identificou como o chefe da guarda, um homem mau que maltratava-os caso não trabalhassem corretamente.
Sem muito pensar, como de costume, Hohg correu em direção ao chefe da guarda e desferiu um belo golpe de clava, defendido com uma certa dificuldade por seu escudo. A ira consumiu as veias do bárbaro que golpeou novamente com uma fúria animal o corpo do chefe. Christofer dava conta de outros dois guardas, o escravo de mais dois. O saqueador sacou seu sabre e lutou bravamente com outro dos guardas e Aramil utilizou sua lança longa contra o último. Hohg havia recebido alguns cortes da espada do chefe, porém continuava em pé e castigando-o furiosamente com seus potentes golpes de clava. O escravo, com sua pesada picareta, havia derrubado um dos guardas, porém encontrava dificuldade com o outro. Christofer havia matado, com seus bem treinados socos e chutes, os dois guardas com quem lutava e correu em auxílio ao escravo, ajudando-o a derrubar outro. O saqueador e Aramil, mesmo muito feridos, também conseguiram vencer seus inimigos.
O chefe da guarda, muito resistente, continuava a desferir potentes golpes com sua espada longa em Hohg. Porém, Christofer encaixou um forte chute voador em suas costas, o escravo deu-lhe um golpe com sua picareta e Aramil terminou o trabalho com uma carga de mísseis de energia mágica. O chefe da guarda caiu morto no chão, porém os aventureiros estavam terrivelmente feridos.
Os escravos estavam muito agradecidos, porém nenhum havia sequer ouvido falar de uma menina chamada Julia. Após uma breve conversa, foram liberados para fugirem das minas para a liberdade. Aramil encontrou, revistando o corpo dos guardas mortos, seis poções de líquido azulado, como aquelas que beberam fora das minas e um conjunto de chaves com o chefe da guarda. Hohg tomou uma das poções das mãos do meio-elfo e a bebeu. A sensação de alívio ao ver seus ferimentos sendo curados magicamente é realmente prazerosa. Cada um bebeu um vidro da poção e Hohg, o mais ferido, bebeu um segundo. O grupo não estava com seus ferimentos totalmente curados, mas estavam dispostos a continuar o caminho e terminar a exploração das minas de Mondragon.
Retornaram ao corredor e desta vez seguiram pelo caminho da direita. Caminharam alguns metros e fizeram algumas curvas até que o corredor terminou em uma pesada porta de madeira. O saqueador averiguou para ver se existia alguma armadilha nesta porta e descobriu um pequeno fio preso em uma das dobradiças. Ele, então, pegou alguns instrumentos em sua mochila e, com uma precisão típica dos ladinos, cortou o pequeno fio que dispararia a armadilha.
– Está pronto, podemos passar. – disse.
Então, ele abriu a porta com cautela e verificou que estavam em um aposento retangular, construído em alvenaria, com pedras sobrepostas nas paredes e no teto. No centro do aposento repousava uma enorme e pesada mesa de madeira com diversas cadeiras, umas ao chão, outras quebradas e algumas intactas. No canto à frente da porta, meias-paredes separavam um pequeno aposento que parecia servir como uma cozinha. Ali, um homem dava a impressão de estar cozinhando. Três pessoas trabalhavam limpando as mesas e cadeiras. O escravo que acompanhava o grupo fez um sinal e disse:
– Vocês estão livres agora. Estes corajosos homens nos livraram da tirania e da escravidão do conde.
Muito agradecidos, os três faxineiros e o cozinheiro correram pela porta, não antes de dizer que não conheciam nenhuma escrava chamada Julia. Na parede à direta existia uma porta de madeira. Após o saqueador garantir a inexistência de armadilhas, o grupo abriu a porta e adentrou outro aposento, repleto de camas, umas em cima das outras, umas arrumadas, outras desarrumadas. Três escravas cuidavam das camas neste momento. Elas também não conheciam Julia e foram libertadas com muitos agradecimentos.
Na parede à frente existia uma outra porta de madeira. O saqueador verificou que não existiam armadilhas, mas estava trancada. Aramil então se lembrou das chaves que havia encontrado com o chefe da guarda. Não seria muito difícil descobrir qual delas era capaz de abrir essa porta.
Christofer olhava para seu grupo e via que o desânimo era unânime. Entraram em uma mina, libertaram diversos escravos, mataram diversos guardas, utilizaram todos os seus recursos, talentos e magias e, pelo que parecia, a menina que procuravam não estava nas minas. Correu-lhe à mente que ela poderia estar morta, ou teria conseguido fugir. De qualquer forma, ainda havia esperança e a menina, ou informações sobre seu paradeiro, poderiam estar naquela porta que o feiticeiro tentava abrir.
A porta guardava um aposento pouco menor que os demais. Uma mesa repleta de papéis e uma cadeira eram seus únicos móveis. Uma escada subia para a superfície na parede oposta à porta. Examinando os papéis, Aramil descobriu que o Conde de Mondragon levou alguns dos escravos das minas para trabalhar em seu castelo. Um outro papel dizia, também, a exata localização do castelo do conde, a alguns dias de viagem dali. O feiticeiro encontrou também uma sacola recheada de peças de ouro. Explicando a situação para o grupo, Aramil e os outros concluíram que eles teriam que ir ao castelo, resgatar a menina Julia e concluir a missão.
– Não poderei acompanhar vocês. – interrompeu o escravo – Faz dez anos que não vejo minha família. Estou com muita saudade. – virou-se de costas e começou a subir a escadaria – Mas, por favor, continuem o trabalho e acabem com aquele conde corrupto. – virou-se novamente para o grupo com lágrimas nos olhos – Encontrem a menina que procuram, ela também deve estar com muita saudade de seu pai. Eu tenho certeza, vocês ainda serão grandes heróis. – enfim, continuou sua caminhada.
– Muito obrigado. Boa sorte! – desejou Christofer.
– Adeus, amigo. – despediu-se Aramil.
– Hohg não gosta de despedidas. – comentou o bárbaro.
Então, o grupo, após alguns minutos de silêncio, subiu as escadas e reparou que elas terminavam na superfície. Acenderam uma fogueira a alguns metros dali e armaram o acampamento. No dia seguinte iriam partir para o castelo e enfrentar o Conde de Mondragon.
Enquanto Hohg e o saqueador dormiam, Aramil e Christofer, que estavam de guarda, conversavam:
– Christofer, – disse Aramil, dirigindo-se a seu amigo monge – como vós monges, que ficais quase toda vossa vida no monastério sem sequer conhecer o restante do mundo, conseguis lutar tão magnificamente sem usar arma ou magia?
– Meu caro amigo meio-elfo, nós monges temos como principal objetivo a junção entre a mente e o corpo, tornando-nos unos com nosso espírito. Os monges eram grandes artistas, criavam diversas obras de arte, como vasos artesanais e pinturas, que valiam muitas peças de ouro quando eram vendidas nas grandes cidades. O ouro obtido era usado para manter o monastério. – pegou um pequeno graveto no chão e jogou no fogo – Mas a ambição do homem por nossas obras era grande e piratas invadiram a nossa ilha para roubá-las. O primeiro saque foi traumático, perdemos muitas de nossas obras e também muitas de nossas vidas. A partir deste dia, os monges desenvolveram um novo estilo de arte, a arte marcial. Aprimoraram seus corpos até atingir a perfeição. Assim, os piratas nunca mais roubaram nossas obras, embora tentem até os dias atuais.
– Muito interessante. Eu fico realmente impressionado com a potência de teus chutes e socos. Às vezes mais poderosos que minhas magias. Mas porque, então, tu decidiste abandonar o monastério e tornar-te um mercenário?
– São dois os motivos. O primeiro é arrecadar uma quantia em ouro para o monastério. É a forma de pagar tudo o que eles fizeram por mim. A segunda – suspirou profundamente – é que eu desejo conhecer o meu passado. Fui encontrado ainda bebê pelos monges de Gavhion e ninguém sabe minha verdadeira história. Creio que será muito difícil descobrir algo, mas eu morrerei tentando.
– Torço para que tu consigas.
– Obrigado.
Então eles dormiram e, na manhã seguinte, foram acordados pelo som de uma carruagem. Parecia uma carruagem nobre, seus ornamentos eram riquíssimos: ouro, pedras preciosas e seda. Hohg atirou seu pesado corpo na frente do nobre veículo e ordenou sua parada. Aramil perguntou ao homem que a guiava:
– Para onde vais?
– Quem pergunta? – respondeu o homem.
– Amigo de Hohg fez uma pergunta. Moço tem que responder. – disse Hohg em tom de ameaça.
– Bem, estamos rumando para o castelo do Conde de Mondragon. – disse o homem, visivelmente amedrontado – Haverá, em dois dias, uma festa na qual toda a nobreza de Morgdan foi convidada. Estou levando o Barão de Hangsdon para lá.
– Moço vai levar Hohg e amigos de Hohg junto. – ameaçou novamente o bruto meio-orc.
– Não Hohg, não poderemos ir assim. Creio que haverá muitos guardas no castelo. Teremos que entrar pela porta da frente, como nobres convidados. – disse Aramil – Você pode continuar seu caminho. – agora se referindo ao homem que guiava a carruagem.
– Qual o plano, feiticeiro? – perguntou o saqueador.
– Precisamos apenas encontrar a cidade mais próxima. – respondeu o meio-elfo.
Caminharam durante algumas horas e encontraram uma cidade de porte médio. Adentraram os seus portões e rumaram para a loja de vestimentas. Lá chegando, Aramil pediu quatro vestimentas de nobre.
– Custará caro, meu senhor. – respondeu o atendente da loja, reparando nos trajes já batidos do grupo.
– Nós temos o ouro necessário. Apenas faças o que te pedi. – disse o meio-elfo.
– Se quiserem se parecer com nobres, precisarão de um sinete. – disse o atendente, referindo-se a um anel com um símbolo personalizado que todos os nobres ostentam.
– Prepara um também. Quero tudo pronto para amanhã.
– Terá as vestimentas e o anel amanhã pela manhã. Tudo ficará em trezentas peças de ouro, pagas na entrega.
– Pois te darei cem peças agora e mais cem amanhã.
– Barganhas bem, meio-elfo. Mas, tudo bem. Combinado.
O grupo dormiu em uma estalagem e na manhã seguinte buscaram as vestimentas e o sinete. Vestiram-se todos como nobres. Hohg, devido a seu tamanho foi o que se sentiu mais desconfortável. Aramil colocou o anel - ele faria o papel de nobre. Pagaram o homem da loja que havia feito um grande trabalho.
– Precisamos, agora, de uma carruagem. – disse Aramil.
– Vamos roubar uma. – sugeriu o saqueador.
– Não precisamos. Agora somos nobres.
– Já pensou em um título de nobreza?
– Sim, Barão de Sunderblind. – disse o meio-elfo, apontando em um mapa para uma cidade que possuía esse nome, a capital do reino de Stonegate. – E vocês serão a minha companhia.
Voltaram para a estrada e aguardaram até que uma carruagem passasse na direção do castelo. Não demorou muito até que uma fosse avistada ao longe, vindo de encontro ao grupo. Aramil estendeu sua mão direita e solicitou que o veículo parasse.
– O que quer, nobre homem? – perguntou o condutor da carruagem.
– Eu, o Barão de Sunderblind, e minha companhia perdemos nossa carruagem. Não teremos tempo para conseguir uma outra. Precisamos de carona para o castelo do Conde de Mondragon.
– Deixe-me ver seu sinete.
Aramil estendeu seu braço para que o homem pudesse ver o anel. E, após isso, o condutor autorizou o grupo a entrar na carruagem. Eles dividiriam o veículo com um outro nobre e uma mulher.
– Prazer, sou o Visconde de Villenon. Essa é a viscondessa, minha esposa. – disse o nobre dentro da carruagem.
– Sou o Barão de Sunderblind. Esses são meu segurança, meu acompanhante e meu servo. – disse Aramil, referindo-se a Hohg, Christofer e o saqueador, respectivamente.
– Sintam-se à vontade. – disse o visconde.
– Muito obrigado. – respondeu o meio-elfo.
A viagem, que durou um dia e uma noite, foi tranqüila. Aramil, fazendo o papel de barão, conversou muito com o visconde de Villenon. Falaram sobre suas famílias, seus territórios, seus criados. Christofer ficou impressionado com a facilidade que seu amigo tinha para inventar mentiras.
Ao amanhecer do segundo dia de viagem, quando o pequeno sol laranja se mostrava no horizonte, já era possível avistar, pelas janelas da carruagem, um belo e grande castelo. Seus portões se abriram após o visconde de Villenon e Aramil identificarem-se como nobres, mostrando seus sinetes.
Aramil e os outros se despediram do visconde após os agradecimentos pela carona. Entraram, então, no castelo do conde e deslumbraram-se com o tamanho e riqueza do salão principal, onde a festa estava ocorrendo. Tudo era muito bonito e tratado com jóias, seda e metais preciosos. A distância entre as paredes do salão era tão grande que os olhos se perdiam no meio do caminho. Dezenas de lustres decorados com ouro e diamante iluminavam todo o aposento. No centro, uma escada decorada com cristais subia para um andar superior.
– Algo me diz que Julia está depois daquelas escadas. – disse Aramil para o restante do grupo.
– Mas, repare, existem guardas vigiando-as. Não podemos subir sem sermos notados. – Christofer ressaltou.
– Saqueador, você consegue subir por fora do castelo? – perguntou o feiticeiro.
– Acho que sim. – respondeu.
– Enquanto isso, irei distrair o conde de Mondragon. – acrescentou o meio-elfo.
Aramil aproximou-se do conde, puxou conversa e, assim como com o visconde de Villenon, saiu-se muito bem respondendo às perguntas um pouco maliciosas que o conde fazia. Durante a conversa, Christofer e Hohg foram verificar porque o saqueador demorava em sua tentativa de entrar no castelo por uma das janelas.
Após obter a confiança do conde, Aramil perguntou:
– Conde, tu deves possuir muitos criados para sustentar este enorme castelo.
– Sim, até perdi a conta de quantos. – respondeu o conde – Mas muitos são, na verdade, plebeus que eu ganhei após a minha promoção de barão para conde.
– Tu utilizas os plebeus como escravos?
– Entendas como desejar, barão. Mas tenhas certeza que são muito bem tratados. Dou-lhes comida e um lar confortável para viver. Em troca, peço apenas que me ajudem com as tarefas domésticas em meu castelo.
– Eu entendo, mas tu ao menos perguntaste aos teus criados se eles gostam de trabalhar contigo?
– Acredito que a maioria goste. – o conde acenou para um outro convidado da festa e voltou-se novamente para Aramil – Desculpe-me por interromper nossa agradável conversa, mas tenho que cumprimentar os demais convidados. Espero que fiques à vontade.
– Tenhas certeza que ficarei. – concluiu Aramil, o falso barão.
Do lado de fora, Christofer e Hohg estavam circulando por toda a extensão do castelo até que viram um corpo ser arremessado violentamente de uma das janelas do segundo andar, caindo fatalmente ferido no chão. Aproximaram-se e verificaram que era o corpo do saqueador. Estava morto.
– Pobre alma. Ele era um homem muito ambicioso, mas parecia ter um bom coração. – Christofer disse fechando os olhos do saqueador para que ele possa, enfim, descansar em paz. – Olhe Hohg, o peito dele está com algumas queimaduras, provavelmente foi atingido por alguma magia semelhante a que Aramil é capaz de lançar.
– Hohg tá vendo alguém lá em cima! – o bárbaro gritou, apontando para a janela da qual o corpo do saqueador fora arremessado. – Hohg vai vingar nosso amigo. Ladrão salvou a vida de Hohg e Hohg não salvou a vida do ladrão!
Suas veias cresceram, seu sangue esquentou e o bárbaro entrou novamente em seu estado de fúria. Correu com toda sua força e saltou na direção da janela. Conseguiu alcançar o beiral desta com uma de suas mãos. Com um movimento bruto, adentrou o aposento. Não tinha ninguém nesse quarto, mas a porta estava aberta e Hohg correu pelo corredor em busca do homem que havia matado o saqueador. Do lado de fora, guardas foram na direção de Christofer.
Enquanto isso, no interior da festa, Aramil ouviu ruídos no andar superior e verificou que os guardas que estavam vigiando a passagem na escada subiram para averiguar. Sorrateiramente, ele caminhou pelas escadas e conseguiu atingir o segundo andar. Correndo pelos corredores, tentando seguir os guardas, verificou que Hohg também estava neste andar causando todo o ruído que atraiu os guardas.
Pensando que Hohg poderia se virar muito bem contra os inimigos e aproveitando que o meio-orc estava atraindo toda a atenção, Aramil resolveu procurar por Julia. Abriu as portas dos quartos uma por uma. Até que, após alguns minutos, encontrou uma camareira loira, de olhos claros, de aparentemente vinte e dois anos. Ele fitou aquela linda mulher e perguntou:
– Tu conheces alguma escrava chamada Julia?
– Sim, esse é o meu nome. – ela respondeu.
– Julia Siston? Teu pai, Luke, nos enviou até aqui para te levar para casa.
– Por Leonar! Isso é verdade? Eu finalmente poderei ir embora?
– Sim, para isso, basta seguir-me. Eu e meus amigos faremos de tudo para tirá-la daqui.
– Tudo bem. Que os deuses abençoem sua alma. – concluiu Julia, com lágrimas nos olhos.
Aramil e Julia saíram do quarto e, em passos rápidos, andaram pelo enorme corredor em direção à escada. Porém, antes de alcançarem seu objetivo, dois guardas perceberam sua presença.
– Alto! Para onde estão indo? – perguntou um deles.
– Me desculpe, senhor. Eu me perdi neste enorme castelo e esta simpática jovem estava a me levar de volta para a festa. – respondeu Aramil.
– Tudo bem. Ela fica aqui. Você vem comigo.
– Desculpe-me novamente senhor, mas ela irá comigo!
O meio-elfo recitou as palavras, fez os gestos e mísseis de energia mágica saíram de suas mãos em busca de um dos guardas, derrubando-o. O outro brandiu sua espada contra o feiticeiro, mas Hohg surgiu correndo por trás, acertando-o com a clava em sua nuca. Os dois guardas estavam caídos no chão e os dois aventureiros começaram a correr até que conseguiram alcançar a escada.
Aramil, Hohg e Julia desceram as escadas, atravessaram todo o salão de festas e saíram pela porta da frente. Porém, do lado de fora do castelo havia quase uma centena de guardas. Um deles tinha Christofer rendido com a espada no pescoço. Eles não tinham para onde ir, estavam cercados de guardas por todos os lados.
Após alguns poucos minutos, vindo diretamente do salão principal, o conde de Mondragon, acompanhado de um homem de barba vestindo um manto branco, aproximou-se dos heróis. Analisou um pouco a situação e disse:
– Sempre soube que tu não és um nobre. Mas vou dar-te a oportunidade de resolver esse problema como um. Desafio-te para um duelo de vida ou morte. Se tu vencer, podes levar a menina. Se perder, ela continua comigo.
– Aceito teu desafio, conde. Mas caso eu vença, não haverá mais conde de Mondragon e todos os teus escravos estarão livres. Além disso, a minha vida e de todos os meus amigos serão poupadas.
– Certo, mais será apenas tu contra mim. Com a arma que desejares. Sem uso de magia e sem ajuda externa. O meu fiel seguidor, o mago Duran, aqui ao meu lado, e meus guardas cuidarão para que essas regras sejam seguidas.
– Homem de manto matou ladrão, amigo de Hohg. – gritou o bárbaro apontando para o mago Duran.
– Hohg, não te intrometa nesta luta. Eu irei vencer esse duelo. – interrompeu Aramil.
– Veremos. – conclui o conde, sacando seu sabre. Aramil iria lutar com sua lança.
O conde se mostrou muito habilidoso no manuseio do sabre. A cada golpe, ele feria Aramil gravemente. O meio-elfo, especialista em magia, não era muito treinado em combate corporal. Por esses motivos, estava evidente que o conde venceria o duelo facilmente. Hohg tinha vontade de interferir, mas respeitou o pedido de seu amigo meio-elfo.
Aramil, muito ferido e caído no chão, já aceitava sua morte. Uma vida desgraçada como a sua finalmente teria um fim. Ele olhou para cima, porém, e viu Julia chorando. Luke Siston havia dito que Julia tinha dez anos quando foi trazida ao conde. Naquele dia ela aparentava possuir vinte e dois. Ele imaginou todas as humilhações que esse maldito conde havia feito com aquela pobre menina. Seu lindo olhar repleto de lágrimas parecia implorar para que Aramil levantasse e reagisse. Essa era a última esperança de liberdade que aquela jovem possuía.
Quando o conde se preparou para desferir seu golpe final, Aramil, com suas últimas forças ergueu sua lança com muita agilidade atravessando o pescoço de seu inimigo. O sangue do conde de Mondragon escorreu pela lança de Aramil até seu punho, indicando que o feiticeiro havia vencido o duelo. Após isso, ele perdeu a consciência.
Duran, o mago de manto branco, ajoelhou, segurou o corpo do conde e, espumando de raiva, gritou:
– Sumam daqui! Que se cumpra o acordo. Mas eu juro que irei vingar a morte de meu senhor. Eu juro!
Sem muito pensar, Hohg colocou Aramil sobre seu ombro e, junto com Julia e Christofer, que haviam sido libertados, saiu do castelo do conde sob olhares dos mais de setenta guardas e de Duran. Os demais escravos também correram para a liberdade.
Durante a viagem de volta, Julia Siston cuidou arduamente dos ferimentos de Aramil. Após oito dias e sete noites sem nenhum outro incidente, o grupo chegou em Golthorny. Rumaram diretamente para a taverna Grifo Verde, onde haviam combinado de encontrar com Luke Siston. E lá estava ele.
A emoção do reencontro entre Luke e Julia, pai e filha, foi capaz de comover Aramil, Christofer e, inclusive, Hohg. A recompensa também foi enorme. Duzentas peças de ouro, um beijo acalorado de Julia em Aramil e a sensação de terem ajudado dezenas, talvez centenas de pessoas a livrarem-se das garras corruptas do conde de Mondragon.
O conde nunca mais faria mal ao povo de Trenet. Luke e Julia poderiam voltar para suas terras e serem felizes novamente. O grupo também estava feliz por ter vivido sua primeira aventura. Sem dúvidas, a primeira de muitas.
(continua…)





